terça-feira, maio 30, 2006

Olisipo !

Tarde...
Quase noite, mas hora perfeita para observar o melhor cenário do mundo.
Examino com vaidade e um tremor periclitante, toda a perfeita imensidão diante dos meus olhos. Pareço chorar de orgulho perante ruídos, cores, odores e toda esta amplitude disforme, mas perfeitamente ordenada de um mundo muito meu.
Vindo de sul, sinto-me abraçado e acolhido com uma hospitalidade única, apenas por uma porção de terra que serviu de inspiração a quem a vestiu, conquistou e tantas vezes dela se esqueceu.
Sinto-me seu rebento, trazendo-a comigo como uma progenitora a quem beijo incessantemente e lhe mantenho total fidelidade. Ergue-se a cada novo dia com movimento, agitação e com vida própria mantendo aberta a sua extensão nocturna, num longo limite de colinas amontoadas, lavadas por águas correntes de um curso grandioso.
Vejo-a como muitos, observando-a como poucos, mostrando o que realmente se sente quando por ela se evoca e tudo se mostra num amontoado de curtas palavras e insuficientes adjectivos.
Evidenciam-se qualidades, apontam-se defeitos, exibindo o seu viver perante os séculos de história, mantendo vivas as estórias de espanto, de aventuras, de lendas e mitos e de tudo aquilo que a compôs e fez dela a grandiosa senhora que a todos conquistou respeito e admiração.
A arte moldou-se nela, refinou-se, dando lugar a obras, a uma cultura ímpar de máscaras e mistério, sabendo manter viva a fiel tradição de algo típico, pitoresco e muito seu.
A ocidente o mar dilata-se, parecendo engolir cada pigmento que a sua pele coleccionou desde sempre...
Finalmente, reparo no mundo que se foi formando por aí fora, tendo-a como modelo, como referência e ponto de partida para a conquista de novos territórios, de novas terras e justamente afirmo, que foi aqui que o universo eclodiu e lhe pediu para ser sua mãe.
Saciável !

No teu sangue alcanço o infinito, na tua alma, permito-me tocar-lhe...
Encontra-me pelo uivo arrepiante da sombria noite que já bem alto se encontra vestida e recheada de movimento. Nela te aguardo, esperando o gélido corpo da tua presença física, quando tombas como qualquer outra.
A imensidão do luar fascina-me e penetra-me o ego, como um doce aperitivo que de tanto agre, se torna num supérfluo e contagiante digestivo. Embriago-me de emoções, de tragos mais ou menos sedutores, mas completamente recheados de sabores esquizofrénicos de saber e malícia. Possuo-me, detenho-me e aguardo-te com uma paciência demoníaca, maquiavélica e agindo de uma forma felinamente cobarde e matreira.
O amor aproxima-se em oceanos de sangue, quase deixando que o prove e o consuma gota a gota, pedaço a pedaço, deglutindo de uma só vez, a carne tentadoramente condenada ao meu proveito. A paixão, assume contornos insanos, permitindo-nos vivê-la no limite, no extremo e ousando transpor o limite do racional. Oculto e dissimulado por entre vários ambientes, capturo-te como uma presa, segurando-te, prendendo-te e alienando-te como algo meu, soltando-te o possível, para que os meus movimentos te possam manipular e fazer-te parte de mim. Rasga-se a pele, sentindo-se os tecidos anatómicos sob formas de harmonia e prazer. Alimento-me de ti, sentindo os teus nutrientes calorosamente aninhados no meu corpo, como um complemento nutritivo que tanto preciso para me satisfazer.
Calmamente, consumo-te até ao fim, saboreando voluptuosamente e de um modo terrivelmente desumano. Frio, grotesco e cheio de desiquilíbrio, mas de uma forma única e completamente arrebatadora. Deixa-me que te ame como mais te desejo !

quarta-feira, maio 10, 2006

Baile Veneziano !

Navego pelos canais venezianos de encontro à Ponte dos Suspiros. Formalmente mascarado de tabarro e capa de seda, vivo a noite de carnaval como mais um momento de trabalho e pesquisa.
Procuro o tal baile, onde ninguém se reconhece por detrás de tão enigmáticos disfarces. Vacilo nos gestos, na descontracção e apesar de escondido, não consigo assumir-me como um qualquer mascarado. Tudo isto é simbolismo, intensidade e sedução...
Sinto-me misterioso, como um cortesão que bem do alto da sua firmeza, observa as misérias humanas que estas máscaras ocultam. Finalmente, alcanço o final do meu trajecto. Junto-me á multidão para fazer parte de toda esta euforia colectiva, e acabo por ser engolido nesta enxurrada de histerismo e loucura. Aproxima-se um grupo de saltimbancos, com o intuito de varrer qualquer réstia de tristeza. Já em terra e deixando a gôndola que me trouxe, agarro na minha máquina e começo a fotografar tudo o que se move, tentando aprimorar qualquer detalhe que me escape no momento. Audacioso, sigo em direcção ao mistério que a todos envolve. Ninguém sabe quem se encontra diante de si. Em muitas destas figuras jokerianas, é praticamente impossível e totalmente imperceptível saber sequer o sexo de quem nos acompanha. Finalmente, alcançamos o nosso destino...
O baile situa-se numa espécie de mercado, onde todo o desfile se vai desembocar e desafunilar.
Perdido o encanto desta enxurrada, dedico-me a observar, a fotografar e a registar tudo o que me é possível. À minha volta, emergem mil vozes risonhas, coloridas, cálidas e em simultâneo com o brilho das fantasias garridas que a todos nos veste. Parece que o céu, é o único elemento sóbrio e tranquilo neste cenário de demência e perfeita loucura. Continuo a realizar a minha tarefa, tentando-me manter sereno e distante de todo este ambiente. No entanto, algo me perturba e interage comigo. Sinto um flash continuo, sempre atrapalhando e condicionando a minha visão. Baixo suavemente a objectiva da minha máquina e reparo a curta distância, numa máscara cujo brilho dos enfeites, parece vir ao meu encontro. Caem confettis sobre os nossos ombros e fixo cada vez mais o meu olhar sobre aquele vulto. É perceptível que se trata de uma mulher, cujo olhar de borboleta e corpo de cortesã, se movimentam eroticamente ao som da música ambiente que por todos é consumida.
Ergo novamente a máquina, com o intuito de captar todo aquele meio circundante. Tento obter a melhor posição para uma fotografia perfeita. Contudo, quando me preparo para disparar e ouvir o glorioso som do obturador, aquela figura desvanece-se, desaparece e consume-se no meio das gentes, não me dando qualquer chance de a apanhar. Quis segui-la, alcançá-la! Perdi-a no meio multidão... Era a personagem ideal e a imagem perfeita para o meu projecto. Olho em redor e nada mais vendo do meu agrado, ponho-me a caminho do hotel, prestes a tirar a minha máscara, com o desalento natural pela perda de algo que muito queria.
A noite muda, acompanha-me. Oiço apenas ruído de fundo, distante e ausente...
Num virar de esquina o luar adensa-se e sob as colunas de uma igreja, avisto-a diante de mim, como que perdida e vinda em meu encalço.
Ambos mascarados, oiço-a murmurar, até me pergunta perceptivelmente, se a desejo seguir. O meu coração palpita-me descompassado... Aceno-lhe ligeiramente, concordando com o seu pedido. Corremos pela neblina, distanciados pelos curtos metros que nos separam, cercando as colunas desta cidade lacustre e parecendo jogar o jogo do desejo. Perco-a, encontro-a e alcanço-a, perseguindo-a nesta espécie de labirinto. Finalmente vejo onde se alberga, mantendo-me imóvel e vendo-a subir por uma enorme escadaria. Diz-me para esperar e para subir apenas quando vir luz numa minúscula janela à minha direita. Aguardo impancientemente, mantendo a desconfiança natural naquela mulher que se cruzou comigo. O meu olhar, concentra-se no pequeno vitral, até que sigo disparado pelas escadas acima, quando o vejo brilhar. Percorro cuidadosamente o corredor, entrando calmamente, naquela divisão. A luz é morta, submissa e incrivelmente sedutora. Concentro-me mais nas paredes e decoração daquele quarto, do que propriamente na mulher que me levou até ali. Contudo e depois de consumir um pouco todo aquele espaço, deparo-me com ela numa enorme cama, mantendo a máscara e cobrindo os seios apenas com uma túnica semi-transparente. Nota-se que está nua, despida de pudores e parecendo desejar-me. Pede-me que a fotografe, que a capture através das minhas lentes, mas que evite a todo o custo, usurpar o seu corpo. Disparo vezes sem conta, mantendo o cuidado de não ousar em demasia e de nunca alcançar uma pele totalmente despida. Aproximo-me, afasto-me, curvo-me em diversos ângulos, tirando o tentando tirar o melhor partido possível de toda aquela sensualidade. Mantenho todo o meu profissionalismo, até que a sinto tocar-me nas pernas, desconcentrando-me e fazendo-me arrepiar. Desço a objectiva vagarosamente, sentindo-a a continuar a acariciar-me. Sinto-me desejado e deixo-me levar. Despe-me suavemente, baixando-me as suaves calças de cetim e mimando-me as coxas até aos joelhos. Ajudo, tirando a camisa e permitindo ficar completamente nu. Acaricia-me o sexo, tocando-lhe e percorrendo todas as minhas formas. Vou de encontro ao seu corpo, deitando-me a seu lado e com desejo de lhe tocar. Percorro-lhe as longas pernas, sentindo-lhe as ligas e num toque inesperado, a carne quente e palpitante. Apalpo-a e mergulho os meus dedos nesse canal de prazer atroz e apetecivel. Sinto-a suspirar perante o meu tacto, enquanto com os dentes lhe puxo a coberta que a conforta e lhe descubro os seios completamente entumecidos de desejo. Roçamos os nossos corpos ávidos de prazer e loucura, mantendo sempre a nossa identidade salvaguardada. Penetro-a com fervor, conseguindo um ritmo selvático que me enlouquece de desejo, com ela cooperante em todas as minhas acções. Sinto vontade de a virar, para a tomar pelas ancas, mas rapidamente sou surpreendido com um forte empurrão que me deixa prostrado de costas. Senta-se em cima de mim empurrando-o para o seu interior, balançando-se nele, sentindo prazer... Cada vez mais, parecemos engolidos para dentro destas máscaras, não sabendo afinal o que somos, o que fazemos, com quem estamos e o que desejamos. Finalmente, num movimento frenético e ousado das suas ancas, surge a explosão maior para ambos. Tudo se estilhaça num louco firmamento. Toda esta sinfonia desconcertante, converteu-se num lento, espasmódico e quase interminável orgasmo de sentimentos.
Exaustos, consumidos apenas pelo sabor da pele e mera proibição de carícias faciais, víamos a noite convertida num pontilhado de serpentinas luminosas. Reparo no fogo de artifício lá fora, rebentando e dando cor à noite veneziana, ficando soturnamente a observá-lo, como que hipnotizado perante tanta beleza. Tento chamá-la para vir comigo até ao varadim daquela janela, mas olhando para o lado, nada mais vejo que a máscara vazia daquele corpo que a usou. Retirou-se de um modo galopante e sorrateiro, deixando comigo a grata recordação de um momento inesquecível... Nunca mais a vi, mas comigo permanece ainda hoje aquela máscara cujo brilho dos enfeites, veio mesmo ao meu encontro.

sexta-feira, abril 28, 2006

Introspecção !

Sou o momento, a alma, o ser...
Momento que termina e me faz sofrer, desejando o próximo, como um slide de sensações e vivências. Sinto-me o tempo, a unidade do mesmo, o desejo e a vontade rastejantes de me esgueirar perante cenários de vida, como a serpente que habilmente se move e nos amedronta.
O viver pulsante dos pesadelos encontra-se comigo, assustando e prendendo a um solo de ardor e sofrimento, como as sombras que me acompanham e se desvanecem com a luz tórrida do meu corpo. Uma secreta promessa de partida, abrilhanta-me o olhar, ilumina-me o caminho e a árida travessia diante de mim, permitindo e deixando que o faça uma só vez no meu interior, no meu íntimo, no meu crer...
No sono da vida jaz o acordar da morte, sempre presente, sempre distante e onde a nossa comparência, assiduidade e presença se mantêm intactas e invulneráveis.
Sinto-me o momento, a alma, o ser que não deixa que se acabe em vão, buscando o prazer e o deleite da vida, sentindo cada vez mais o aliar da imortalidade e da esperança num viver muito para lá do corpo. Aqueles vagamente esquecidos, estarão comigo, encarnando-se em mim, penetrando-me e fazendo com que os seus espirítos viajem incessantemente no corpo que me dá forma, procurando enraizar-se num qualquer outro modelo que os faça fazer sentir vivos e inextinguíveis...
Como um correr apressado de águas turbilhantes, como um vento ensurdecedor de ameaça e revolta, sou o momento e o ser que se ergue do sono e procura no acordar a elevação espiritual que tanto necessita para alcançar a vida eterna.
Para lá de tudo... viverei !
Luna !

Sangue sem reflexo sobre as águas do medo, cujos acontecimentos se afogam perante o líquido cristalino que se move, deambula e balbucia ao sabor do vento...
Cedo voluntariamente sem hesitar, por uma vida cruel, fria e demasiadamente viciada por métodos condenáveis e através de um génio temperamental plenamente concebido. Vivo no meu astro, com ele e por ele, mantendo-me unido e fiel a principios básicos de coerência e influências astrais.
Repouso no toque da carne, vivendo num casulo apertado de metamorfoses asfixiantes, neste mundo de falsas crenças e onde tudo se permite acontecer... ctg e por ti !
Pareces a semente da loucura, sinal de resistência perante um estado inato das fases que te vestem, moldam e nos influenciam diante de um tacto facilmente corrompido. Mostra-me como fazes, como me esmagas e me atrais até ti, fazendo-me um seguidor possuído pelo teu encantamento mágico de misticismo e loucura hipnotizante...
Feridas de luz por ti irradiadas em céus inimigos, realizando acções, dando-lhes vida, ganhando forma, permitindo que os seres se criem, se destruam, se movimentem e conquistem a erosão de um tempo sempre ausente, sempre presente, sempre audível, sempre sentido...
No teu gelo evaporo, no teu calor derreto, no teu suspiro me encanto, no teu ser me elevo.
Contigo desde a nascença, sempre... até ao fim !

terça-feira, março 21, 2006

Guerreiros !

Desafiando e partindo de encontro à tempestade, ainda com a tranquilidade do tempo, partamos sem receio ou temor do tenebroso caminho que se nos apresenta. Percorramos os mesmos sulcos de pedra e de obstáculos, por onde centenas de homens lado a lado, sentiram os ventos soprarem fortes e devastadores. Da mesma forma prosseguiram, resguardados pela fé e pela crença de um destino radioso, iluminado e tranquilizador.
Através do nevoeiro que nos engole, com armaduras vestidas de coragem e ousadia, procuremos alcançar o términus, e ver por que trilhos andaram estas gentes, estes conquistadores de um tempo actual, bem diferente das batalhas de outrora e que mesmo assim venceram, destruindo inimigos tantas vezes frágeis e apenas psicologicamente ameaçadores.
Na pluviosidade facial que nos inunda o corpo, na névoa que nos oculta as mãos, no terreno movediço que nos faz escorregar e tenta engolir, lutemos bravamente para sairmos vitoriosos, buscando o êxito e o galardão final, como a tão almejada recompensa que tanto nos irá preencher e atestar. Jamais nos entreguemos de ânimo leve ou nos rendamos apenas por um conjunto de impurezas, de uns quantos galhos espalhados diante de nós ou mesmo por uns mercenários de elite, que tantas vezes nos pisam e fazem de nós um degrau sujo mas conveniente para subir.
Manter-nos-emos fortes, audazes e esguios para fugir de obstáculos, nas batalhas ou barreiras finais que surgem incessantemente...
Seremos novamente guerreiros, regressados com um poderio maior e mais ameaçador, com espadas em riste, escudos de protecção cada vez mais pequenos mas resistentes, sem sangue por derramar ou carne disposta a ser trespassada de ânimo leve. Completemos o desafio, provocando o confronto com vencedores de outras direcções e permanecendo tranquilos em pódios muito próprios.
Regressados a casa, vencedores, aguardam-nos as honras pelos objectivos conseguidos. Façamos no brinde da vitória, a sentida homenagem e respeito a todos aqueles que perderam pelo caminho e que pelos mesmos propósitos, lutaram bravamente sem infelizmente, o conseguirem.
Orgulho sempre, pelo que somos, pelo que conseguimos, mantendo a humildade dos verdadeiros guerreiros, que nunca se entregam e olham para os menos fortes, com o mesmo respeito que sentimos por nós próprios...

terça-feira, março 14, 2006

Pazer súbito !

A ti te dispo, a ti te desejo, a ti te adoro...
Imagino-me em vastos e longínquos cenários, descobrindo e desvendando em cada um deles, novas formas de aventura, de excitação e de prazer. Recebo-te em cada cena, esperando-te e permitindo que os acontecimentos se desenrolem e nos envolvam, tomando parte de nós, possuíndo-nos e deixando que o prazer físico nos contenha.
Espero por ti, vejo-te chegar de olhar penetrante, andar apaixonado e seguindo na minha direcção. Recebo-te de braços abertos, de lábios quentes e derretidos, mantendo também eu, um olhar de expectactiva e de sofreguidão. Abraço-te, percorro-te cada forma do teu corpo, deixando-me levar e permitindo-me sentir, saciando a oportunidade que me é concedida.
O beijo aterrador e o toque lento mas directo, despem-me de preconceitos e deixam a nú, a minha frágil parte física que me reveste e dá forma. O silêncio a ambos consome, permitindo leves guinchos de som agudo e inarticulado. O suspiro e a excitação sobem de tom, mantendo viva a respiração ofegante, que os nossos corpos teimam em produzir. As vestes que nos cobrem caem por terra, deixando o odor corporal pairar pelo espaço e fazendo com que nos ambientemos cada vez mais a uma outra pele quente e aromatizada. O consumo a que nos propomos, é deveras carnal, selvagem e directo mas sempre contemplando um nível de ardente sedução e entrega, que em nada nos intimida, proibe ou envergonha. Fluímos energias, fluxos de poder e vigor. A firmeza em nós habita, permitindo que nos sintamos em condições de produzir actos de perfeita sintonia e desempenhando simplesmente, um papel secundário nesta forma de amar. O epílogo, nada mais é que uma castração incoerente da acção por nós encetada. Talvez seja o lento desejo por recomeçar, uma sensível intuição com traços de prazer ou blasfémia por um prazer sexual, tantas vezes incompreendido. Sintamo-lo apenas, vezes sem conta e recomeçando a cada novo momento... A mim me despes, a mim me desejas, a mim me adoras...

sexta-feira, março 10, 2006

Segredo Obscuro !

O Sol parece desintegrar-se como uma chama distante, contra os Céus...
Além da tenebrosa neblina que os reveste e disfarça, situa-se uma verdade encoberta.
Parece uma espécie de reino ainda por desvendar, cujos ocultos e eficazes poderes, amedrontam e fazem acautelar o comum dos mortais. Ainda é demasiado cedo, para que se ouse ir mais além.
Sentença designada, por uma força do desconhecido, a resposta não andará muito distante do nosso espírito, onde nos perguntamos incessantemente sobre o que estará naquele lugar, observando e registando apenas, pequenas circunstâncias deste lado visível.
Passados uma vez para lá do horizonte, selados no seu interior, intocáveis e seguros, encontraremos este segredo escondido, arrumado e inteiramente só. Naquela escuridão vadia e profunda, descobre-se a força, o domínio, a influência e um poder demasiado forte, para se poder controlar levianamente.
Os Céus parecem dividir-se e querer lançar sobre os astros, a ira, a raiva e o furor daquela poderosa e eficaz energia acumulada, aquando do chamamento. Os oprimidos e injustiçados, emergirão da poeira e da densa névoa que nos limita o olhar, trazendo partes do segredo e desse poder, acopladas em si... Os injustos e opressores, acomodar-se-ão no fútil e no vago, permanecendo em silêncio e alojados em recônditas celas de escuridão e desprezo.
Talvez não passem de cobaias ou de seres vitimizados por algo sobrenatural, mas gozam de um estado e de um estatuto, ainda indecifrável numa vida humanamente existente.
Em breve, o saberemos...

quinta-feira, março 09, 2006

Coma !

Vê através do vazio, a visão da tua existência e diz-me no que reparas e onde fixas o olhar. Talvez um sonho, em que acreditas estar a vida que não consegues ver, ou algo que exista e não o consigas ser...
Acordarás, mas não para um sonho... Talvez, para uma fantástica aparição ou aproximação do real que tanto começas a acreditar e a alienar, como um sentimento efectivo semelhante à dor, cuja sombra te acompanha de feição. Não acreditas que te aprisionas, que te sentes irreal, que sofres de um sono demasiadamente pesado que não termina e te faz balançar entre o abismo desconhecido e um precipício descoberto.
Não domines o olhar da tua mente, quando simplesmente essa mesma visão parece ser uma peça chave de outros tempos, acontecimentos ou criações muito próprias e ambíguas. Receia e debate tudo o que sonhas, já que essa mesma ilusão, se poderá encontrar vedada por ti.
A visão que observaste, esse olhar pela mente e pela consciência, acabará inevitavelmente por ser um lado escuro que nunca quiseste ou desejaste e com ele, lentamente te destróis e te deixas arrastar. Contudo, a principal razão de entrares neste sonho, é simplesmente demonstrar-te o que nunca imaginaste poder viver, sentindo a fúria da demência e o poder do sono profundo.
Estarás a salvo enquanto visionares! Reterás internamente o segredo do que viveste, mantendo a experiência sentida nesse túnel de luz, selada bem próximo do teu princípio espiritual.
Lentamente, aprende a despertar desta embriaguês física e teleporta-te novamente para o teu mundo, onde a actividade cerebral volta a registar os contornos de uma vida real. Acorda !

terça-feira, março 07, 2006

Sensibilidade.

Parece um crime levar todos os tesouros e fortuna que reuni ao longo dos tempos. Apesar das correntes e do loquete que se perpetuam no meu peito, jamais serei capaz de as quebrar, simplesmente com o intuito de retirar do meu interior tudo o que de mais valioso mantenho.
Ainda que viva em mim uma hipnotizante mancha de reflexão, cuja coloração me confunde e desnorteia, o simples facto dela existir no meu íntimo, faz com que se derreta e se extinga num dourado extraordinário e extremamente precioso.
É a doce futilidade do amor, esse travo amargo que nos é cravado pelo tempo e nos faz tornar nuns estranhos seres, surpreendidos pelo sentimento de afeição e veneração, misturando factos emocionais de atracção e paixão...
Cada lágrima vertida em cada parte do rosto, parece secar no desespero e na dor aquando da perda, da privação, do extravio ou interrupção dessa disposição afectiva a que muito condignamente, apelidamos de amor. Parecemos viver o suficiente, ter a necessária experiência para conviver com as razões, motivos ou argumentos que nos levam a quebrar a singela corda, que sempre nos pareceu tão resistente, sólida e duradoura. Sente-se o fim bem próximo, quase selamos um pacto com a morte, julgando ser apenas ela a nos conseguir trazer as doces e felizes memórias, de um passado demasiado envolvente... Vivem-se horrores assombrosos, parecendo drenar toda força e respiração ofegante que em nós habita e aos poucos se dissipa...
Nada nos resta, nada nos vale... Apenas reside em cada um de nós, a cinza e a poeira, suavemente lavadas por uma qualquer gota de água que ocasionalmente nos pincela e nos extingue. Libertemos o sangue que dói, fere e importuna, mantendo sempre bem vivo e protegido, o coração que nos permite sentir e viver.
Contusões...

Será que nunca foste ter com o mundo lá fora, receando o que te espera?
Sinto o mundo demasiado perigoso para te ver sozinha e abandonada por aí... Creio ser e poder ter o crédito necessário para não te deixar desamparada, nem á mercê das intempéries que por aí se povoam, aguardando-nos sedentas dos nossos corpos miseráveis e esguios.
Ambos sabemos que nem tudo é resposta, nem tudo são questões ou dúvidas, devido ao medo e à raiva que se aproxima num largo passo e nos faz culpar por vezes, as próprias vicissitudes dos acontecimentos. A quem magoamos nós, já sangrando em abundância pelas batalhas mal conseguidas?
Também me pergunto, porque será que o mundo exterior e diante de nós é negro e perigoso, contrastando com as nossas paredes cada vez mais pequenas e sufocantes?
Passo a passo, diariamente, creio não conseguir viver só, nem te deixar fazê-lo.
Olhos perversos, visões espantosas... Sacode as lágrimas, acende um sorriso! Acorda!
Pareces pronta para ir lá fora, respirar a vida, sentir a carne, tocar a pele e deixar que o sangue se verta dentro de ti. Que este viver escondido se interrompa, agora que pareces conseguir um pacto secreto com o teu ser... Paremos de lamentar, sacudamos o choro compulsivo que nos derrubou e nos fez parecer engolidos pela frieza dos dias. A quem magoaremos agora?

segunda-feira, março 06, 2006

Justiça !

Sinto-me cansado...
Talvez dos múltiplos disfarces que visto, tentando através deles apurar a verdade. Contudo, realizo-me e mantenho o compromisso de honra que mantenho diante das minhas mãos ensanguentadas, por nelas mergulhar a mentira, a injúria, a demência e o embuste.
Arrasto-me e rastejo na busca de permissas reais, na exactidão, rigor e precisão de actos meramente correctos, numa glória vã de descobrir o certo e o errado, o correcto e o incorrecto, o exacto e o impreciso... Crescem-me o medo e o receio das respostas por virem, das soluções que julgo serem escrupulosas, decentes e de padrões morais acessíveis.
Grito, rezo e alimento a minha tensão, numa tentativa proporcional de alienar o tempo, aos resultados das análises pedidas. Sinto-me a criança que apressadamente, aguarda pelo seu brinquedo, que se sente arrastar na escuridão, que se diverte na espera e nela vai criando e antevendo ambientes, como que a montar um conjunto de peças, para finalmente o completar com um último bloco. Mantém-se o medo e o pavor dos momentos de vazio, de uma espécie de precipício ou abismo diante de nós, em que um passo nos salva e nos suspira ou nos mata e compromete. Que longa espera...
O tempo assemelha-se a um vento que nos sopra, mostrando-nos o destino, esse poder superior à vontade do homem, que se supõe fixar de maneira irrevogável, o curso dos acontecimentos.
Olho-me como que reflectido por um espelho, vendo lá fora um mundo inteiro por fazer parte, tendo apenas a decisão em mente e um vidro baço que me separa da vida real...
Acordo a cada manhã em sobressalto, até ao dia da decisão...

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Posses !

Não poderei ser amante, sentindo-me como que assexuado e preso a uma corda de amor...
Dificilmente viverei sem ti de uma forma ou de outra, admitindo que jamais serei ou conseguirei ser o que és, o que somos e o que sou a teu lado. Nem acabamos por descortinar um desfecho, uma solução final ou um epílogo directo, mantendo em ambos a viva esperança, de encetarmos o tratamento para esta contaminação que aos poucos nos consome e destrói.
Não posso ser os teus sinais, viver os teus ímpetos, sentir os teus impulsos nem tão pouco ser esse teu gelo que se acumula e amontoa, formando um icebergue de frieza e ríspidez, onde gostaria de adornar essas orlas e extremidades que tanto nos perturbam... Poderia ser o teu apocalipse e viver cada uma das nossas insignificantes vidas em ti, em mim próprio, tendo nele o bater de exterminação, ruína e perda total. Jamais serei como tu e nem mesmo esse ser abominável e hediondo que tanto pareço ser e a algo se assemelha, se conseguirá convencer ou transformar num amor distractivo que se atreve a tocar os limites da demência. Nunca serei a tua absolvição, ou o trajecto na cadência do teu consumo.
Não consigo...

quinta-feira, janeiro 12, 2006


Trilhos !

Trajectos difíceis quando os percorremos sós, doendo e ferindo sempre mais, quando nos dilaceram os sonhos imaginados e sentidos por uma vida de espinhos e farpas cortantes...
Em cada novo porto de abrigo sentimos novas intempéries, onde parámos para buscar uma paz interior, que nos fortaleça o íntimo e nos faça seguir em frente. Deixando as perturbações que nos assolam e atormentam, outras se nos deparam, como uma real guerra que nos quebra o espirito e se nos crava como parasitas em busca de hospedeiro.
No lado de fora das portas da vida, dir-te-ei onde acabarás, bastando que apertes a mão de quem ta estender e sigas o caminho e o rumo certos, cujo percurso é teu e jamais terá fim.
Esse será o teu lugar, onde serás tu e o teu refúgio, onde te sentirás livre, em casa e onde desejarás estar...
O trilho é arduo e longo, cada passo é um começo, sem pausas ou paragens. Apenas barreiras nos prendem a consciência e apesar desta constante perseguição, não creio que ninguém saia vencedor. É um rumo intenso, demorado e intransitável, duro como um inferno de fogo, mas é nele que habito e sobrevivo. Que na primeira gota de sangue por mim derramada, seja o começo do meu trajecto, onde dia e noite luto para me manter vivo e viver a vida, sobrevivendo!
Cristais !

Começa com um sentimento puro, esta vitral segunda visão.
Sem alucinar ou imaginar, capto o meu futuro nesta roda da fortuna que se desvenda diante de mim. Parecem honras ou hostilidades abertas, apenas destinadas a loucos e insanos.
Através deste vidro visível, viajo e deambulo, controlando uma máquina perfeita de imaginação, realismo e demasiada crença. Será que tudo isto, terá o condão de acontecer, ou manter-me-ei na expectativa de nada se realizar e tudo ser negado ?
Realisticamente, a necessidade de me agarrar a modelos gastos, leva-me a mais uma experiência, sendo esta apenas mais uma em que acredito e em que julgo poder trazer-me uma vida mais brilhante. Adivinha de horrores, excepcional por vezes, através de detalhes quase sempre revisitados, sinto-a alinhada com o prisma da morte, como um olho de cristal, onde somos vistos como seres débeis e estáticos, mantendo-nos hipnotizados no seu interior.
Antes do "grande acordar", o erro persegue-nos, como que a contar segundo após segundo, um despertar mais intenso para a realidade que nos atormenta. Nada deverá acontecer ou se algo por acaso se suceder como uma matéria coincidente, nunca te porei em causa, como uma fraude que sejas ou um objecto de mero uso decorativo!

sábado, dezembro 17, 2005

Coração de pedra !

Tantas vezes passas ao meu lado e sem me ver, te deixas amparar noutros braços. Tento fingir que não vejo, porém sigo como um tolo enciumado e apaixonado. Quem me dera estar contigo e ser o outro, tendo-te nestes braços, que te amam e loucamente te desejam, por um pouco. No fundo, o desprezo é tanto, que a dor se sobrepõe ao sentimento e a vontade de te abraçar, faz-me ter por ti o maior desejo que algum dia senti. És simplesmente o que mais quero neste mundo!
Será que sentimos verdadeiramente, ou sabemos o que acontece, quando alguém que amamos nos esquece? Aos poucos, eu me acabo, vou morrendo, terminando este sentimento, sentindo que o teu longínquo amor, me transformou num coração de pedra, gélido e sem capacidade de amar! Olha para mim, uma vez que seja, antes que me vá sem conseguir sorrir...

terça-feira, novembro 29, 2005


Lamento !

De tanto correr pela vida sem qualquer freio, esqueci-me que a vida, se vive num momento. Omiti detalhes que julgava serem insignificantes, pela enorme vontade e sede de querer ser em tudo primeiro. Brinquei com os sentimentos, vivendo da loucura envolta pelas ilusões. Gritei pensamentos ao acaso e ao vento, deixando de ser o que sou, vivendo agora sem sentir. Canto ao amor chorando pelos sonhos, sentindo-me sem coração, energia ou razão objectiva para prosseguir. Lamento continuamente ter brincado com o que mais queria, desperdiçando e perdendo sem me aperceber tudo aquilo que outrora foi meu e sem esforço atingi. De tanto jogar com a verdade e a mentira, enganei-me sem saber que era eu quem perdia, fracassava e a ruína perseguia. Roubei tempo ao tempo, querendo ganhar dias e noites em sonhos, apenas por querer descobrir a cada dia algo novo. Muito esperei e em que por nada oferecer, hoje fico a chorar, recordando o tempo em que levianamente sorria !

quarta-feira, novembro 23, 2005


Mantendo-me vivo !

Como uma tempestade de trovões cuja dissolução de aproxima rapidamente sem aguentar qualquer outro revés, jamais me será possível vacilar ou ajoelhar diante de um outro cenário destrutivo... Rastejar como serpente doentia, assemelha-se a um contexto puramente insano e nele apenas me permitirei localizar num estado demente e corrosivo.
Mantenho-me vivo, velho, vulgar, gasto e cansado, embora suficientemente hábil e ciente para pisar o meu próprio chão sem no entanto haver algo para revivificar.
Tento lavar e extinguir todas as imundas e hediondas mentiras que me lavraram a vida, a decompuseram e abandonaram o meu crépito viver, á mercê de seres necrófagos que me trairam e deixaram extraviado o meu percurso. Parti para distante, num tempo obscuro e embora ainda os consiga sentir respirar, jamais conseguirão o melhor de mim...

quarta-feira, novembro 16, 2005


Exausto !

Talvez seja esse místico homem, de duas cabeças que se espetam pelo tronco e vivem aprisionadas num só corpo... Uma olhando para trás, a outra para baixo e em nenhuma delas se consegue decifrar e compreender.
Quiçá seja também, esse abominável e legendário ser de quatro mãos, que toca, que cura, estrangula e possuí, não conseguindo em nenhuma das suas acções, realizar qualquer tipo de prática que o satisfaça...
Sinto-me exausto, por estar num lugar onde nunca estive e por voltar de um lugar que nunca senti. Esqueço-me de quem sou, cansado de o ser... Esqueço-me do que sou, embora cansado para me deixar. Sinto-me um homem de duas palavras, que deseja saber quem é, que se perdoa sobre o que é... mas insiste !

quinta-feira, outubro 27, 2005


Gerações de vaidade!

Irrita-me constantemente esta geração de teenagers dos anos 2000.
Não será certamente por uma questão de inveja ou de mau estar perante as idades ou os novos tempos, mas pelas atitudes rascas de uma geração que um dia mais tarde tomará conta dos nossos destinos. Julgam-se uma espécie de aristocratas, de pensadores do mundo actual, de donos da razão, da sabedoria, da inteligência, da educação e apesar de ser neste mundo que vivem e fazem parte, continuam a olhar em demasia para a sua sombra e umbigo, mantendo sempre a secreta esperança que sejam olhados como seres superiores.
Fazem-no com a vaidade, no acesso a modas, no consumismo exacerbado e julgam justificar desta forma, o mérito que os alimenta e tanto os envaidece. Atitudes de humanismo, de educação, de boa vontade, de boa fé e de princípios, não os descreve e sinto-me pobre perante uma geração que cresce à minha volta e apenas amadurece com o acesso a meios artificiais.
É curioso, reparar que estes novos homens e mulheres, "partem" para a vida relativamente cedo. Começam uma vida sexual precoce, julgando descobrir o amor, procuram alguém para com uma presunção ridícula, mostrarem que andam e não namoram e enfeitam-se de mil e um ornamentos ou objectos, por acharem que é ser mais crescido. O que dizer, quando se vêem autênticas crianças, com decotes generosos, com piercings, penteados, com certos tiques e postura de etiquetas, com roupas de gente grande ou com vestuário muitas vezes descabido à sua interior maneira de ser? Apenas querem ser grandes!
Aposto que por detrás de tudo isto, não passam de meninos parvinhos, que não são capazes de lamber as próprias feridas quando caem, que não conseguem ser suficientemente homens ou mulheres sem o equilíbrio de pessoas mais velhas, sendo o mais repugnante de tudo isto, a forma grosseira e altiva com que por vezes troçam e reparam nos idosos, nas pessoas da província, e em tantas outras gentes que entendem ou julgam, serem seres inferiores. Não direi que os progenitores sejam os principais culpados, mas também encontro paralelismo na sociedade que nos sufoca, na televisão, nas figuras mais ou menos públicas, na escola, etc... Geralmente, tomam certos "artistas" como modelos a seguir, pelo que vestem, pelo que cantam e pelo estilo que os compõe, parecendo serem apenas estas, as melhores características para qualquer ser humano. Não me sinto com vontade nem sequer com moralidade alguma, para entrar em comparações com os miúdos dos anos 70, 80 ou 90. A época é outra, os tempos também e a vida que aqui veio desembocar, é de igual modo totalmente diferente. Entendo tudo isto de uma forma perfeitamente normal, mas causa-me antipatia e repugna-me apenas, observar uma juventude de fachada, de vaidade desmedida e doentia, contrastando com muita fraqueza, debilidade e pobreza a nível espiritual e intelectual.
Sinto um carinho muito especial pelos jovens e pelas crianças, mas começa a ser desesperante este mesmo contraste entre os sinais de riqueza e de beleza exterior, com a total abstinência de valores, de códigos de conduta e de personalidades definidas. Acaba por ser uma critica construtiva, bastante pessoal e obviamente generalizando muito, mas cada vez mais encontro exemplos dos que citei, mantendo-me sempre na esperança e com um orgulho desmedido, de encontrar miúdos a contrariarem tudo aquilo que referi. Esses sim, serão grandes !

quarta-feira, outubro 26, 2005



Marcos !

Atingi recentemente a simpática marca dos 50 posts. Não é de todo, um alcance notável, raro ou extraordinário. Muitos dos que se dedicam á escrita, conseguem-no talvez ao fim de um mês ou quiçá em poucos dias, mas talvez se limitem a transcrever factos, a lançarem debates e a comentarem acontecimentos do nosso quotidiano. Muitos desses locais onde se discutem ideias e formas de estar, são soberbos, fantásticos e com acções exploradas ao mais ínfimo pormenor. A muitos deles, presto a minha homenagem e sincero sentido de gratidão, pela forma como despertam o meu interesse ou tocam os meus sentidos. Contudo, neste meu ano e meio de expressão escrita, a minha forma de manifestação, foi sempre diferente. Ousei jogar com os sentimentos, beliscar a mente, ir para lá do visível e explorar tudo aquilo que se encontra na génese humana, muito comum a todos, mas um pouco camuflada. Não o fiz de uma forma leviana ou irreflectida. Muitas vezes, talvez tenha relatado certas situações numa perspectiva muito pessoal e menos abrangente, mas ainda assim, fiz sempre questão de salientar e destacar pontos comuns a qualquer um de nós. Foquei sensações, vivências e formas físicas... Usei termos duros, frios, directos e transparentes, contrastando por vezes, com alguma doçura, suavidade e boas doses de loucura, cujos princípios fazem parte da minha distinta forma de ser. Estimulei a mente, procurando sempre deixar entreaberta a imaginação a critérios disformes...
Jamais tentei que a minha humilde e modesta presença neste local, se tornasse num modelo a seguir. Apenas induzi, que a mesma fosse assimilada por quem consumisse estas linhas e fizesse deste meio, uma forma de meditação, de comparação e de elevação espiritual. Em cada letra, cada palavra e cada frase, existem muito mais do que simples ideias ou conceitos. Nos meus momentos de inspiração, (em todos eles e sem excepção) deparei-me com intensos fluxos de sentimento, de emoção, paixão, entusiasmo e disposição afectiva, tendo vestido muitas vezes um papel de actor, para relatar na perfeição, cada parágrafo com a maior intensidade que me fosse possível viver.
Talvez o fizesse devido à experiência de vida, mas sem dúvida que muito devo ao facto de me manter sempre atento, à vontade de me conhecer e compreender, ao desejo de explorar cada vez mais o comportamento humano e com ele, enriquecer e crescer o máximo possível.
Pela forma como fiz e não deixando apenas de ser um despretensioso ser humano, achei apreciável a cifra dos meus 50 momentos de prazer único, sincero e de muito deleite.
A todos os que me absorvem, espero poder presenteá-los, com mais meias centenas de ideias e conceitos ao longo do tempo... Bem-hajam !

Ventos !

Na escuridão, no medo e nas trevas do silêncio, bem próximo do sono profundo, vivo e alimento um sonho. Invoco-o, alimento-lhe a alma e contorno-lhe o espírito, da mesma forma que os veleiros rasgam as águas e dominam os ventos. Pareço ouvir o cantar de anjos neste sigiloso descanso. Repouso num lugar bem para lá do Sol, através de um céu límpido de ruidos e impurezas, encontrando apenas um pequeno caminho luminoso por entre uma escuridão funesta e hedionda.
O meu sonho, assemelha-se a um sussurro, a uma luz de vela ou a um pequeno feixe brilhante que apesar de insignificante, liberta um fluxo tão radiante e intenso que me permite expandir, alcançar e ser observado sem que me dê conta disso. Olho no seu interior, vejo os tumultuosos e desordeiros ventos que o alimentam e sem me deter, acredito cegamente que serão ventos de fortuna, de mudança e de orientação. Deixo-me levar, voar e levitar para bem longe...
Elevo-me para lá de um arco-iris de cores reduzidas e direccionadas, procurando apenas a cor cintilante do ouro a que me proponho obter. É lá, que encontro o início de uma estrada, onde qualquer outro iria terminar, para relançar a minha essência e dar continuidade a algo que não consigo aceitar como um fim prematuro. Contudo, é também aí que os ventos se confudem, misturam e colidem, fazendo com que me arraste, não consiga curvar nem ter força suficiente para manter a minha linha recta de um modo firme e imutável.
Aguardo por estrelas cadentes, por novos objectivos para acumular e iluminarem o meu caminho. Deixo que a minha vida se escreva neste tornado, em nuvens acima e nuvens abaixo, deixando o vento ocupar o meu céu e poder empurrar toda esta nebulosidade que tanto me prejudica. Quando assim acontecer, terei o caminho desbravado, solto e livre para caminhar de encontro aos meus sonhos, tendo a certeza que dias de tumulto ou demasiado radiosos, não resistem nem se fixam eternamente.
Cerro ainda mais os olhos, novamente em busca das minhas aspirações e sentimentos, sentindo apenas a leve brisa dos meus ventos utópicos e de desvario. Imagino, acredito e alcanço, não só por mim ou pela vontade própria de me controlar, mas porque as direcções a que sou muitas vezes vetado, induzido e pressionado, também me incapacitam e precipitam decisões. Sonhemos e deixemos que os ventos, por nós decidam...

domingo, outubro 16, 2005

Desprezo !

Será que nunca te cansas de te dares em demasia? De seres sempre tu, a tomar a iniciativa das coisas, não apenas para teu proveito, mas principalmente porque pensas também nos outros?
Por vezes, dá-me a sensação de ser quase impossível arrancar um simples sorriso de satisfação ou bem-estar, de alguém que se sentiu preenchido por nós. Os agradecimentos são momentâneos e limitam-se a pouco mais do que um obrigado instantâneo, devido a um silêncio monótono que se poderia instalar. Torna-se extenuante e desmotivador, quando nos colocamos no fio da navalha, deixamos de parte tarefas e funções pré-concebidas da nossa própria realidade e vamos ao encontro e em auxílio de quem por nós invoca.
Talvez o façamos por princípios, educação ou forma de estar na vida perante os outros, mas ganha muito sentido e cada vez mais terreno em nós, uma vontade fria e gélida de deixar tudo ao acaso e fazer com que cada um se vire por si. Outras situções nos se deparam, quando urge a necessidade de nos mostrarmos, de aparecermos e de nos tornarmos visíveis.
Vociferamos com intensidade, erguemos a sombra e destapamos o olhar com o intuito de manifestarmos a presença, de dizermos que estamos vivos, em bem e que queremos que a nossa preocupação perante os demais, seja sentida como uma forma de acompanhamento. Torna-se enfadonho, monótono e fatigante, quando perante o nossa assiduidade, apenas temos de volta o nosso eco e não sentimos um sinal do nosso receptor. É desmotivador, quando sentimos que além de não sermos lembrados, parece existir a sensação de total esquecimento e de sermos sempre nós a tomarmos a iniciativa e o começo de um cumprimento. Cansa, quando o fazemos repetidamente e sem resposta... magoa, quando o tempo aumenta e com ele, ninguém nos acena.
Apetece-me parar ! Deixar de cumprimentar, de falar, de conviver, de saber quem se encontra bem e aguardar por quem realmente está comigo, voltando a escolher todos aqueles, de uma forma crua, selectiva e insensível. Que se lixem todos! O importante... sou mesmo eu !

sexta-feira, outubro 14, 2005

Auto-censura !

Abandonado pelo tempo, com um fraco impeto de revolta, deixo que o remorso me vença.
Deixo-me balançar na extremidade do precipício, onde um coração vazio, ressequido de alma e princípios, se estaciona no abismo. A vida racional, consome-me e tira proveito deste carácter necrófago. Parece-me o inferno, onde Judas é a noite desta decadência que me habita. Eterno inferno, como as chamas de uma chuva ácida, num pecado que não concebi deliberadamente. Para sempre viverá em mim, anexado com a dor e o sofrimento que me crava e esculpe a consciência, a culpa e o nojo neste corpo que me compõe.
O choro compulsivo, a mágoa constante e o peso interior, acentuam-se e nem o tempo parece fazer esquecer. Descanso acordado, perguntando-me continuamente sobre a intenção dos meus gestos e acções, que como um qualquer larápio, me levaram o milagre da vida. Voltar atrás no tempo, remediaria. Fazê-lo em consciência, remendaria!
Nada poderei fazer. Perseguir-me-á eternamente até á morte... para sempre !

quinta-feira, outubro 13, 2005

A lei do amor...

É a ti que te amo, na mais bela aura da vida...
De que me vale percorrer as formas, a intensidade e o realismo do amor, se nem consigo quantificar o valor do tributo que lhe presto? Por ele te encontrei, te toquei e senti de uma forma tão pura quanto sincera. Derrubá-lo, é agigantar-me peranto algo que não me atrevo a fazer... Erguê-lo, é ver-me na pequenez de um todo, dificilmente atingível na sua completa plenitude.
Talvez me encontre numa forma de respeito, de temor ou receio. Talvez encontre uma certa estupefacção, a cada novo caminho que escolha. Nele me meto, inicio e termino contigo, sem que me encontre abandonado ou esquecido. Ardendo como fogo, ao longo da minha singela existência, a luz ténue mas constante e o calor exasperante, prova-me o que sinto. Torna-se evidente, responde-me e afirma-me, o acto de viver. A confusão habita, o consolo impera, mas a razão do meu sentimento, leva-me a admitir o porquê da conduta do meu amor.
A entrega, a dádiva e a partilha, admitem-se pelo coração... O beijo doce, vinca-se com solidez e sente-se demasiadamente intenso, para ser cínico ou superficial. Respondendo-te com altruísmo, apenas digo que... amo-te simplesmente, porque simplesmente te amo !

quinta-feira, outubro 06, 2005

Ser ou parecer ?

Sou o que pareço, mas para mim sou o que sou.
Não seria bom se todos pudessemos viver num mundo em que as máscaras sociais não tivessem razão de ser? Meditai e transcrevei...

domingo, outubro 02, 2005

Humor...es!

Em muitas circunstâncias, damos por nós envolvidos em situações de imensa graça e cheias de humor. Muitas delas surgem espontaneamente, outras são preparadas com o propósito e o intuito de nos fazerem rir. Contudo, as melhores de todas, serão certamente aquelas cuja inocência ou de alguma forma ignorância, nos deixam abismados e atónitos, com a tamanha barbaridade do que foi praticado. Acontecem situações, de verdadeira loucura saudável e por vezes, chega a ser lamentável a forma como nos servimos dos outros, para cobaias da nossa chacota ou gozação. Temos certamente, inúmeros casos de episódios engraçados e caricatos para relatar. Aliás, durante toda a nossa vida, recordamos alguns deles com um sorriso especial, quer pelas recordações ou pelo estado de espírito bem disposto, que isso nos proporcionou. Recordo muitas estórias com um gostinho especial e cada vez que me debruço sobre elas, penso no momento de mau estar que isso tenha causado a quem as protagonizou.
O que dizer quando alguém afirma inocentemente que o escroto (saco cutâneo que alberga os testículos), fica em Lisboa, julgando ser um qualquer lugar, de qualquer bairro? Ou o que pensar quando ainda existem pessoas que acham que a Internet, se encontra fechada a partir das 22h e apenas funciona nos dias úteis? Para já não falar dos casos gritantes de utentes anónimos da Via Verde, que não compreendem o porquê de ser necessário substituir a pilha do aparelho, pois juram a pés juntos, terem acabado de colocar uma bateria nova no seu veículo!
Isto é apenas uma milésima parte, de casos "inocentes" que testemunhei, e com eles, veio o espanto, a incredulidade e ainda a dúvida sobre quem estará a gozar com quem. Muitas vezes usamos figuras, personagens e caricaturas como objecto de sátira, ironia ou troça e adaptamos-lhes estes factos reais. Usamos as loiras, os negros, os ciganos e tantos outros figurantes de uma forma cruel e mesquinha, para conseguirmos reproduzir o que na realidade parece ser irreal e nada demonstrativo de um ser humano, dito normal. Entra aqui também um pouco da experiência, das vivências, da maturidade, do desenvolvimento social e da cultura geral. O que será conhecimento para uns, não será certamente para outros, visto ser este ponto demasiado vasto e daí, ser-se fácil troçar com quem não sabe o que sabemos e vice-versa. Ainda assim tenhamos a liberdade de reflectir, pensar e meditar que há limites para tudo. Haja no entanto, bom senso para abranger e tentar compreender o porquê de certas afirmações ou atitudes que julgamos serem absolutas aberrações e englobá-las no contexto adequado, para que todos tirem o respectivo proveito, sem ninguém sair demasiadamente prejudicado!
Talvez até eu, seja motivo de chacota pelo muito pouco, que julgo saber...

sexta-feira, setembro 30, 2005

Caixas !

Que absurdo e estranho é este mundo que habitamos...
Sem ligarmos aos outros seres que coabitam connosco, paremos um pouco para pensar nos utensílios, objectos e construções que nos servem de auxílio e suporte para uma vida supostamente melhor. Basta por exemplo, olharmos para o lugar que nos serve de abrigo, nos aconchega e conforta e ao qual chamamos, casa, lar, ninho, ou o que quer que seja. Apesar de ser nele que nos sentimos com total privacidade e bem-estar, não passa de um amontoado de pequenas divisões, compartimentos e separadores labirínticos. No fundo, o que tento tentado entender, é que toda a nossa vida é feita dentro de caixas, de pacotes e de moldes mais ou menos antagónicos e em nada defensores do ar livre e "espaço aberto", que os seres vivos tanto necessitam para se expandirem e libertarem. Até nos momentos de suposto divertimento e lazer, nos remetemos a esta espécie de arrumação mórbida de clausura e recolhimento.
Dentro do meu apartamento, encontro-me cercado por paredes, por um tecto que me sufoca e esmaga de encontro ao chão e de uma minuscula área de suposta liberdade, que ainda assim me limita o ar que respira e o infinito a que me permito alcançar. É nesta espécie de formigueiro que habito, com vizinhos, com amigos e até familiares... Todos juntos, todos prisioneiros de um material que nos protege e esmaga pela dureza das suas formas.
Bem cedo, liberto-me da minha caixa-mor, entrando numa outra que me permite mover e circular de encontro a tantos outros locais cujo destino me proponha a alcançar. Talvez seja esta mais agradável, porque me movo, porque posso ver e respirar de uma outra forma, ouvir algo mais e estar mais atento, mas ainda assim me encontro novamente cercado de materiais que me blindam a passagem para o exterior. Mais uma vez, parto ao encontro de mais um depósito fechado, seja para trabalhar, fazer compras ou até mesmo um lugar de diversão. Esteja onde estiver, parece que a necessidade de estarmos encerrados em compartimentos exíguos se acentua cada vez mais e de uma forma severa, tal e qual quando se pune uma criança e se a manda para o quarto. Não estaremos também nós mesmos, fechados num quarto, de castigo e pagando pela imoralidade dos tempos modernos? A única forma de libertação, surge quando procuro um contacto directo com a natureza. Aí, expando-me. Liberto-me de uma prisão ofegante e permito-me erguer os braços, correr e gozar de uma liberdade raramente conseguida neste mundo artificial. Que malditas caixas haveriam de ser construídas para nos colocarem...
Apesar de livres, somos bem mais prisioneiros do que aquilo que pensamos !

segunda-feira, setembro 26, 2005



De volta...

Em grande parte das nossas vidas, surgem por vezes momentos de reclusão bem próprios das nossa vivências, das nossas experiências e até mesmo de necessidades internas do nosso ser.
O meu caso, não é de todo excepção e durante este tempo, muita coisa foi pensada, assimilada, apreendida e sem dúvida que isso me fez crescer. Talvez não tanto como gostaria, é certo, mas se a busca incessante de aprendizagem e a constante procura pela perfeição, não fizessem parte de mim, jamais me teria recolhido e nunca me conseguiria ter alheado de muitas e tantas outras coisas, que povoam e consomem o meu quotidiano. Por vezes, o recolhimento a que me sujeito e submeto, é deveras ambíguo e atroz. Sinto-me despido por um vestuário que me aconchega e me dá aparência, sendo que ao mesmo tempo, me encontro sufocado por objectos desconfortáveis que me compõem, adornam e me mantém de alguma forma apresentável.
Talvez apenas pareça uma mutilação exterior, ou uma maneira muito especial de dizer que me encontro presente, em construção ou a ser melhorado. Contudo, no meu íntimo, actualizo-me, desfragmento-me e encaixo peças soltas para que o meu espaço seja melhor conseguido. Que choque brutal, por vezes isso demonstra aos olhos de quem passa... É natural e inteiramente justo. Afinal, para momentos de introspecção e construção interior, são necessários colocar utensílios e peças de cariz agressivo, para que o resultado final se apresente melodiosamente belo e perfeito !

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Lacrimejante sensação de vazio !

Sentimento obscuro, repassado pela violência de pensamentos. É um choro que toma partido de fases concretas do vivido, do pensado, do sentido...
Se conseguisse, treparia continuamente a mágoa cravada pelo tempo e faria dela uma cicatriz suficientemente resistente a qualquer intempérie manifestada pela vida. De nada me vale, de nada a sinto, talvez pelo gelo que se acomoda no seu redor e ao invés de algo palpável e macio, encontro uma estranha rigidez e uma fraca elasticidade no tecido que me compõe.
Talvez não me magoes, seja impossível, mas ainda assim, vê a intenção e a violência com que ainda me penetras e na profundidade com que me atinges.
Nem te dás conta, é um facto, mas se o coração atinges, é no choro compulsivo que liberto a alma, sangro o íntimo e satisfaço a natural carência com que me debato. Tal como uma lâmina que me provoca um profundo golpe na pele, sentir uma estaca invisível de encontro ao meu ego, é algo doentio, demente e tristemente frio. Existirá sempre tanto ódio naqueles que amamos ?
Direi que sim, que é um ódio de estimação por tudo aquilo que gostariamos de sentir e não temos. Dá vontade de agitar o outro, dizer-lhe o que nos faz movimentar, despertar, enriquecer e ser feliz. Que complicado é sacar um sorriso dos que gostamos, depois de tanta entrega, tanto sentimento e boa vontade. Em troca, apenas a leve sensação do dever cumprido e a triste impressão de termos conseguido alcançar o nosso objectivo. Recompensa ? Nenhuma... Talvez o facto dos novos pedidos, nos faça sentir bem pelo que foi dado anteriormente. No fim de contas, ambos nos importamos com o que nos envolveu, tivesse sido amor, ódio, entrega, dádiva ou retribuição. Talvez as lágrimas que nos correm num sentimento de impotência sejam o melhor de tudo. São elas que nos acordam para novos ideais e nos levam as pinturas reinantes, deixando borrada a maquilhagem que tantas vezes usámos e composémos para sermos agradáveis. Coração partido, deixados num lancil de passeio ou simplesmente com um arder interior, é algo digno de anjos sem asas, que nos caem aos repelões, e voam com afiadas lâminas de ingratidão, uso e despojo. Um dia, fá-lo-ei e quando acontecer, lembrar-me-ei da forma nua e crua com que tudo é sentido, imaginado e inventado pela malicia inocente do interesse e da incúria. Talvez o choro que sintas, te lave de igual modo a decadência e doença imortal do ser humano. Nessas lágrimas, estarei presente pelo sentimento de outrora...

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Imagens Reais !

Estranho, quando nos deparamos com imagens e vemos retratada a nossa existência. Pela primeira vez, senti revelada uma vida similar e muito própria em toda a sua plenitude. Pelos factos, em tudo coerente, digna e sincera do meu ser. Muitas vezes, encarnei o espírito de outros e de muitos 'alguéns' que gostaria de ser, mas não desta vez!
Despi o papel de herói que muitas vezes imaginei, tirei o fato de homem corajoso, bravo e aventureiro que gostaria de alcançar... Sempre manifestei a necessidade de entrar no universo das coisas, ir além do que apenas me era visível e palpável, e sentir tudo aquilo que se espelhava bem para lá do meu simples campo visual. Puras imagens, monótonas, agitadas, em repouso ou movimento, traduzem algo bem mais forte e único do que apenas aquilo que se descortina a olho nú. Talvez deste modo, os meus sentidos tenham sido levados ao extremo e me tenham sempre feito sentir como se fizesse parte daqueles enredos, daquelas estórias, daquela arte...
Contudo, o que dizer quando acontece o inverso e vemos que existe uma cópia fiel do que somos? Parece que o conjunto de actores que representam uma peça, que o conjunto de artistas que criam telas, figuras ou meras imagens o fazem em nossa honra, nos invadem a privacidade ou nos usam para seus modelos e inspiração. Quando bem desempenhados, não conseguimos entrar no espirito da arte e apenas nos deixamos fluir e sentir que tudo é um retrato fiel do que vivemos. Pomos de parte a tal vontade de sermos aquilo que vemos diante de nós e agradecemos por não conseguirmos nada mais, do que o orgulho de sermos como somos. Nunca na vida me senti tão agraciado por me fazer entender e embora saiba que tudo o que foi feito jamais terá sido a pensar em mim, a feliz coincidência de ter acontecido, faz-me sentir feliz, muito realizado e preenchido.Talvez seja um grandioso exemplo da minha personalidade e uma forma extremamente directa de apontar como sendo o que sou...

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Insónias!

O que te apraz dizer quando não adormeces?
Talvez um universo imenso de questões, de dúvidas, incertezas ou mesmo um atribuir de algo que não é de todo decifrável.Talvez seja apenas algo físico, um ruido imenso vindo do exterior ou uma espécie de poluição vibroacústica, que nem se sente ou compreende. Contudo, acho que chega a ultrapassar uma razão lógica e é-lhe atribuído um carácter bem mais ausente e real da complexidade humana.Parece-me estar a atravessar um desses momentos e a cada novo minuto que vai passando, acresce-me a preocupação de serem sessenta novos e valiosos segundos que desperdiço na minha noite e que subjacente a isso, perco umas quantas células nervosas essenciais ao meu equilibrio diário. Levanto-me do meu leito quente por não conseguir aguentar nem mais uma fracção de tempo deitado. Distraio-me com tarefas normais que faria em qualquer tempo livre que teria. Pego num livro e apesar da falta de sono, o cansaço impede-me de atingir uma concentração completa sobre o tema que escolhi para me debruçar e entreter. Largo imediatamente o conjunto de folhas que havia pegado e coloco-me de novo num outro patamar. Vejo as páginas on-line dos diversos jornais diários que irão sair á rua dentro de poucas horas. Também isso me faz perder um pouco o encanto, pois sem dúvida que a agradabilidade de ler as manchetes pela manhã num qualquer quiosque, me faria sem duvida despertar outro interesse. Ligo a televisão e embora me mantenha entretido enquanto as teclas do meu ruidoso telecomando, me permitem fazer um zapping acelerado, não vejo nada de particularmente chamativo. Talvez sintonizando uma qualquer estação de rádio, me ajude. Faço-o com satisfação e perante um daqueles sons, daquelas músicas dos meus tempos de criança, recordo com interesse e com a lembrança de momentos anteriormente passados. Sinto-me longe daqui... Imagino-me onde estaria quando ouvia aquelas vozes, em que situações me deparava e que sentimento me faria sentir naquela altura. Perante algumas canções, senti algum saudosismo doentio e fases menos boas. Optei por desligar. E agora ? Que vou eu fazer ? Tomar um anti-depressivo, um sedativo, um ansiolítico , ou regresso ao meu leito, mantendo-me imóvel e estático até que o meu cérebro encontre a paz necessária para descansar ? Não sei, mas até o facto de não ter sono, me deixa stressado. Se fosse criança, seria fácil pegar no meu boneco de peluche, ir para junto dos meus pais dizendo que estava com medo, ou arranjando uma qualquer desculpa para o meu mal.
Sento-me na cadeira do meu quarto. Confortavelmente, encosto-me e deixo-me ficar com a cabeça para trás. Fecho os olhos e tento um descanso artificial desta forma. Ainda assim, milhentas acções deambulam pela minha mente. A preocupação dos dias que virão, tudo aquilo que lhes vem anexado, os aborrecimentos dos dias anteriores e que por mais que tente não se apagam de ânimo leve. Talvez pense demais, mas num estado de fraqueza psicológica, tudo me é permitido. Talvez não enfrente a pressão com a força devida e embora durante o dia nada me afecte, é nas altas horas da noite que me sinto frágil e impotente para derrubar um conjunto de factores adjacentes á minha vida.
Acho que se alguém se lembrasse de telefonar a esta hora ou me mandasse uma mensagem de incentivo, ficaria eternamente grato. Qualquer ser humano normal, reagiria de outra forma, mas comigo não. Digam qualquer coisa, por favor ! Não só deixaria de ficar feito parvo dormindo em pé numa cadeira, como também teria um excelente motivo para me manter bem vivo.
É doentio estar aqui! Lá fora vejo uma, duas, três janelas no máximo, acesas, mas de certeza com pessoas a poderem alegar motivos diferentes dos meus.Tudo me ocorre nestes instantes. Falta de apoio, alguns excessos de uma vida por vezes regrada em demasia, demasiada pressão sobre os ombros, vontades de uma sociedade em nos transformar em algo que não somos nem nunca seremos capazes de ser. Enfim... Parece que aqui também não adianto muito e se tudo isto me modifica e me estraga o metabolismo, talvez seja melhor mendigar e deixar tudo ás avessas. Neste momento é o que me dá vontade, mas sei que amanhã tudo o que digo deixarão de ser apenas palavras ou promessas e tudo retomará o caminho natural. Nada disto é escolhido ou premeditado, mas o poder de decisão nem sempre é válido ou correcto. Se a alguém contar esta minha aventura ou epopeia nocturna, levarei com um "vai dormir, que o teu mal é sono" e isso apesar de me fazer esboçar um largo sorriso e me fazer sentir ou achar ridículo, sei que não é de todo correcto. Apenas, são momentos em que por mais voltas que dê, não consigo dormir.
Fases naturais de uma insónia normal nos dias que correm... Amanhã estarei melhor !

sexta-feira, novembro 05, 2004

Realidades !

Observo soturnamente a noite diante de mim.
Como uma espécie de ferida que se tenta fechar e sarar, penso no curativo ideal que me faça voltar a tempos em que a auto-cura era um processo intempestivamente presente.
Reparo na força e na vontade dos actos, sem sequer me preocupar em entender como tudo acontece, se realiza e regressa ao ponto de partida.
Recordo toda a vida perante o meu olhar, chovendo e infiltrando-se de novo em mim de uma forma gélida, omissa e grotesca. Lágrimas de nuvens passageiras que se precipitam através de uma pluviosidade natural, vão descendo pelo rosto e destilando a minha noite que vai desaparecendo. Pela manhã, surgirá um novo dia, onde a felicidade reinante de alguns, me trará pensamentos e me fará ter memórias nunca concebidas.
Talvez uma confusa demência se pareça apoderar de mim neste momento. Contudo repousar no útero pouco original em que se vive, faz-nos observar para além do previsível e com isso, ousamo-nos libertar e alcançar metas muito próprias. Sento-me no topo do tempo, viajo e deambulo ao sabor de uma suave brisa que me traz, leva e por vezes me alcança num mundo de constante mutação e realismo mórbido.
O sonho que de noite parecia real e previsivel, cai na tentação da monotonia. O confronto com a manhã, demasiado físico e grosseiro...

terça-feira, novembro 02, 2004

Make-up !

Pelo reflexo natural de um espelho há muito construído e de certa forma baço e obsoleto, revejo-me a cada manhã de uma forma diferente. Vejo as imperfeições da estética, das formas que me compõem, me moldam e nelas me deparo com um complexo turbilhão de sensações.
Reparo nos contornos do rosto que há muito deixaram de ser os mesmos. Na textura, na cor que o veste e que nele se vai acentuando e acumulando. Parecem ser despojos de uma longa vida assimilada por um curto espaço de tempo. Talvez sinta experiência e sabedoria na pele gasta e usada, mas não deixo nunca de a sentir como uma mera e simples carcaça do interior que me mantém vivo e ciente da vida aí por fora...
Estranha sensação de exibicionismo e vaidade mórbida por algo tão irreal e doentio como a falsa demonstração exterior do que somos. A cada novo dia, o processo de rejuvenescimento interno, ganha novamente uma experiência e uma qualidade intrínseca que nunca é oportunamente acompanhada pelo externo. Surgem-me à ideia, as estranhas sensações da vergonha, do receio, da falsa aceitação pelos outros, simplesmente devido a um não acompanhamento progressivo do mental e do físico. Parece inevitável o recurso doentio de colocação de máscaras, de pinturas jokerianas que roçam e tocam o rídiculo, apenas com o intuito de camuflar o interior e fazer parecer mais afável e agradável. Precisarei mesmo disso? Não me parece...
Lanço novamente o olhar perante o vidro reflector. Toco-me suavemente e pelo meu tacto deixo-me levar. Parece-me bem e lógico, preencher algumas destas lacunas e imperfeições com tudo aquilo que me for mais adequado. Contudo, fecho e olhos e deixo que o meu tacto me acompanhe mais uma vez. Que vejo eu? Nada...
Não enxergo as tonalidades e mesmo os altos e baixos passam despercebidos. Parece um sonho acordado em que a verdadeira perfeição do meu interior, salta e deambula diante mim. Deixo-me levitar por largos instantes. Pareço um ser perfeito, em que embriago todos ao meu redor, deixando uma espécie de contágio saudável á minha volta... Apenas sou agradável. Nada mais!
Pelas inúmeras regressões que me acompanham nestes instantes, sinto-me a sorrir de felicidade e de bem estar. Encontro o ponto de equilibrio perfeito e após o sentir, abro os olhos lentamente e olho no seu interior. Julgo ter visto a verdadeira beleza e nela ter desencadeado um estado de espirito soberbo.
Vejo os olhos sorrirem, confiantes e sinceros comigo mesmo. Apetece-me sair agora, Não me preciso ver... Sinto-me bem !

sábado, agosto 14, 2004

Utopia !

Como desejaria que desviasses o olhar na minha direcção e mantendo a mesma postura que te veste, mostrasses um sorriso rasgado, bem pintado nessa face rosada e dilacerada pelo tempo...
Como me apeteceria pegar-te em meus braços e rodopiar dançando, sorrindo, olhando e mostrando o meu rosto de felicidade aos deuses que me observam e protegem. Seria uma dança de amor, de alegria e de um coração preenchido, deixando que toda esta envolvência se estendesse também a ti e fosse partilhada por ambos.
Fechando os olhos e imaginando essa possibilidade, desejaria que este momento fosse eterno, único e egoísta, para que me sentisse pleno de felicidade e encanto. Se soubesses como me sinto frio,calculista,deturpado, se me visses o interior e o desencanto, se me tocasses na solidão, no medo e no receio, saberias que o teu simples olhar me iluminaria a vida, me deixaria esperançado e me aqueceria o íntimo. Fecho os olhos de novo, preferindo imaginar-te comigo do que sentir que te vejo, passando despercebido e ignorado. Desta forma sei que te encontro as vezes que quero, te tenho a meu lado sob todas as formas e se a tristeza e a dor de não te possuir são amargas, valerá a pena alimentar o meu ego com a tua imaginária existência em mim.
Ver-te-ei de novo, ou é apenas um fugaz encontro pela tua presença física em meu redor ? Não sei. Apenas acredito que enquanto puder dançar contigo e segurar-te com os meus braços, irei desejar que o momento perdure e se estenda pela vida eterna. Dança comigo de novo, deixa-me que te segure como antes, deixa-me que te aperte mais uma vez...
Findo o sonho e o encanto, abro os olhos lentamente. Vejo-te já distante e de partida. Nunca saberei se me olhaste, sorriste ou terás fixado o olhar num outro ponto. Talvez seja tímido, receoso e envergonhado. Talvez não tenha a coragem necessária para te enfrentar e dizer o que sinto. Contudo, estou bem ciente da diferença das nossas realidades. Mundos distintos, ambos complexos e em tudo diferentes, mas com a noção de ainda assim serem similares.
Lamento desejar algo que não consiga tocar, mas enquanto viver e me permitir sonhar com um objectivo próprio, manterei viva a chama no meu interior. Ainda que não toque, saberei que o meu espírito e a minha força conseguiram bem mais que isso e é quanto me basta para me preencher. Mantenho a esperança, a crença e a fé, porque se interiormente chegar a determinado estaturo, faltará um pequeno passo para o realizar...
Voa !

Dentro de ti, lágrimas de pura frustração descem em cascata na direcção do teu íntimo, do teu espírito, do teu coração... O que poderia preencher essa alma conturbada? Talvez nunca o saibas.
Segue-me, entra no meu doloroso mundo, na essência da eternidade, numa mente aberta e ilimitada, sentindo a viagem... voando pela noite !
Quebra, mundo ferido... Queda, mentes doentes sem lugar para pernoitar, ardendo num fogo de mentira, derretendo o gelo da verdade.
Voa, entra no meu mundo doentio, na eternidade...
Voa, abrindo a mente e seguindo viagem.
Voa... pela noite !
Encontrarei a luz e a trarei para bem junto de ti.
A esperança encontra-se perto, o fogo da mentira parece extinguir-se.
Voa... sempre !

quinta-feira, agosto 05, 2004

Atalhos !

Deparando-me com uma encruzilhada em que a confusão e indecisão reinam e pairam sobre mim, por vezes a melhor escolha será tomar um dos caminhos, sem que me venha e lamentar e a criticar por isso. Tomando a esquerda ou a direita, o importante será mesmo saber em qual dos pólos confinei a minha decisão, e nela jamais creditar todo o fracasso ou sucesso que daí me advenha. Independentemente do caminho árido ou suave que venha a sentir, terei sempre de realçar que sou suficientemente hábil e crente nas minhas capacidades, para saber aceitar e viver com exactidão, num ambiente por mim criado.
Ainda por vezes, nesse mesmo processo de escolha, me posso permitir a adquirir um meio termo e nele poder saborear o doce e o amargo de cada uma das partes. Dado a escolher entre as trevas e a luz, escolheria o espaço entre elas, porque me permitiria viver sempre e quando quisesse, mas também morrer quando assim o entendesse. Com isto, faria com que a minha vida fosse algo mais que uma normalidade, transmitindo-lhe um encanto e um fascínio, com uma metamorfose por mim conseguida e em todo controlada. Ainda assim, não deixaria de evidenciar feridas interiores e rasgos superficiais de dor e mágoa, devido a uma vida em que o processo de cura e envenenamento está bem patente no meu subconsciente. O factor humano é pródigo no saber ferir, ser ferido, mas tem na luta e na crença, a força ideal e a capacidade de se alhear do sofrimento, sabendo e buscando incessantemente o antídoto certo para determinadas situações.
Deparando-nos com o abismo, seja por atracção ou refúgio, a encruzilhada volta a fazer-nos companhia, levando-nos novamente a um estado de indecisão doentio e em que a pressão da escolha toma novamente uma proporção gigantesca e ameaçadora do medo e receio que sentimos. Pautados pela razão e pela emoção, resta acima de tudo, conseguir juntar ambos os conceitos e permitir que se encaixem e complementem de uma forma indissociável. Há que equilibrar de uma forma racional e directa, pois se a razão gere, acumula e toma a iniciativa, a emoção é tudo aquilo que deve ser gerido e tomado em linha de conta pela sensibilidade das coisas... Resta-me escolher e seguir em frente, mantendo uma polivalência e uma sagacidade naturais para conseguir contornar eventuais precalços, por atalhos direccionados ao caminho por mim traçado.

domingo, julho 11, 2004

Sentidos !

Bem alto, no topo da colina, jaz uma pequena capela onde é audível o som estridente e melancólico de um velho sino.
Situo-me distante, numa terra árida, em que é palpável o restolho de uma seara de trigo e se podem cheirar e saborear estranhas sensações de vazio, de solidão, mas de muito sossego.
Daqui, há um imenso retrato físico e psicológico por tirar. Daqui, vejo e sinto coisas diferentes, abstractas, reais, porventura demagogas ou mesmo dementes. Contudo, muito naturais.
Oiço o bater do pêndulo no sino. Não vejo quem o toca, o que o faz tocar, nem qualquer tipo de gente. Apenas observo o movimento de vai-vem e a forma como o som perdura e viaja até mim. Estranho, mas parecem abrir-se brechas e fendas pelo solo. Parece que o eco perdura e todo o universo treme a cada batida no metal. Assusta!
Sento-me numa enorme pedra, bem no centro do antigo trigal e começo uma estranha viagem, decidida pelo meu olhar e pelos outros sentidos.
Ainda tendo a pequena capela e o toque do sino como referência, tento abstrair-me das vibrações que se fazem sentir e tento descrever o que vejo. Em baixo, uma nora enferrujada acoplada a um antigo poço de pedra, range e move-se ao sabor do vento e de um minúsculo fio de água. Um pouco ao lado, as canas e as árvores agitam-se de uma forma medonha e indefinida. Ouvem-se os estalidos dos ramos a quebrarem e o bater destes ao chegarem ao chão. Nos campos de cultivo, a poeira levanta-se em círculos e desaparece no ar. Os pássaros desaparecem no horizonte, parecendo apressados e desejosos de sairem rapidamente para outro lugar. Os roedores, saltam e correm de encontro aos seus abrigos, parecendo recear algo pior do que já se sente. Os répteis não se vêem, talvez porque não sejam as condições ideiais para se mostrarem e se fazerem notar. Os seres ruminantes, mantém-se serenos, levantando apenas as cabeças a cada batida, a cada toque compassado do sino e mantendo o olhar desconfiado em qualquer direcção. Os insectos, parece que nunca estiveram aqui, apesar do cheiro nauseabundo da fruta podre que se decompõe, junto ás raízes das árvores.
Tudo isto é muito estranho, assustador, mas indescritível. Olhando para o céu, as nuvens vão-se escurecendo e sente-se que vêm carregadas. Do sol nem sinal, apesar da sua luz conferir ainda uma claridade suficiente para se saber que estamos num final de tarde.
Sinto as primeiras gotas de chuva e o odor da terra molhada pelos campos, começa a fazer-se sentir...
Lá em cima, o sino continua a sua tarefa. Batendo e esgrimindo uma melodia calma mas sinuosa, prossegue o seu método de uma forma natural. Não distingo o que toca. Parece ser tudo e ao mesmo tempo, nada! Não é um marcar de horas, não é um repique de festa e muito menos um toque de sinais. Será que alguém apenas se diverte e agita o enorme objecto de metal? Não sei, mas parece ser o instrumento musical correcto para este dia.
Estou encharcado pela chuva. Deixei-me embalar por este ambiente e por aqui fiquei. O vento acalmou e a água sagrada vinda dos céus, também. Aos poucos a claridade parece aumentar e junto á pequena ribeira, o arco-irís dispara e traz alguma cor a este dia acinzentado que passei.
Soube-me bem estar aqui. Sempre sozinho, sempre acordado e motivado para reter qualquer pormenor. Os seres-vivos que observei, parecem ter desistido de voltar. É lógico, até porque o dia está a terminar e deverão ter-se recolhido em abrigos bem mais seguros e menos vulneráveis a certos riscos.
Ainda assim, acredito que irão voltar, apesar do toque assustador do sino no alto da torre...
Levanto-me e parto eu também para o meu abrigo, não sem antes passar pela pequena capela e também eu fazer soar o sinal da hora do meu regresso. Enfim... de volta a casa !

quinta-feira, julho 01, 2004

Filhos do diabo

Nascido pelo pecado, um orgulho para o inferno onde se trai e alimenta a vingança como um elo entre mundos. Serpentes da morte, amamentam o filho das trevas, alimentando-o e mantendo-lhe o vigor e a robustez próprias de um servidor da tortura, de um escravo do poder e de um legionário do mundo de fogo que habita.
O poder que o veste, testemunha o progresso, sendo a aplicação dos seus sentidos ocultos, uma escolha premeditada.
Nos olhos sequiosos e insaciáveis na busca de almas deambulantes, reside uma força interminável de procura, de desejo e desprezo pelas mais elementares regras ou conceitos éticos das leis morais.
Pelo caos se rege, pelo medo alheio se alimenta e com ele se sodomiza...
Encontra-se junto a ti, estendendo-te a mão com uma falsa ajuda, querendo-te puxar vertiginosamente na sua direcção, para que se alimente dos teus despojos e do teu fraco interior...
Enfrenta-o sem receios e sem virar costas, descobre a forma adequada e correcta de recuar lentamente sem tropeçares.
Desliga-te do medo e olhando-o de frente, apaga esse imenso fogo que o veste e lhe dá cor. Cega-lhe os olhos com a tua frieza e sensatez, resistindo á tentação de te entregares de uma forma fácil e directa. Orienta a tua verdade interior, organizando e arrumando as encruzilhadas dentro de ti.
Torna-te crente do teu íntimo, buscando a ajuda divina se te aprouver fazê-lo e aí encontrarás o caminho correcto e a paz de espírito na vida que vives. Busca a verdadeira alma interior e nela encontrarás novamente o colorido necessário para te preencheres.
Longe, muito longe daqui, saberás encontrar novamente o equilíbrio.
Cruzarás rios, subirás montanhas, descerás vales e saberás enfrentar todo o género de batalhas nas costas de um outro tempo que não este. Age de acordo com a tua crença e reage suficientemente a fim de encontrares o antídoto certo, que te tire do trapézio que te desiquilibra e te faz viver na descrença. A salvação encontra-se dentro de ti, olhando de frente e nos olhos, esses imensos filhos do diabo que te atormentam e quase te fazem cair. A direcção correcta nem sempre está adiante, e embora a facilidade do passo em frente seja tentador, na dificuldade tem de residir o saber, a coragem e a destreza de não virar as costas. Mantendo o olhar intimidatório ao mesmo tempo que se recua diante de algo, é o caminho a seguir.
Novas enruzilhadas virão e com elas, opções, decisões, escolhas e quiçá as respostas e as vias correctas...
Resta olhá-las de frente, sendo vigorosos e vitoriosos perante os tais "diabos" que nos tentam !
Nos olhos da morte !

Em mentes próprias, dilaceradas pelo fogo e onde o demónio é Deus, o olhar de almas inocentes, demonstra duas faces...
O descontrolo, a decadência, fragmentos de um nada, de um vazio sedutor e de escravatura, contrastam com impérios de trevas e vácuo onde as criações interiores deambulam e se arrastam, arruinadas.
A fome, ri-se por dentro... O sagrado não existe !
Perante o olhar da morte e no cume da noite, o juramento de sangue segue alto, sentindo-se sobre ele a proximidade de um novo destino.
Perante o olhar da morte, nada ainda se revela...
As feridas jorram o quente sangue de batalhas efémeras e por mais que se unam, jamais se curarão. O gotejar explosivo e crepitante do sangue, das lágrimas e do suor expelidos pela vida, em nada trará a glória ou a honra no sentido da morte, permitindo apenas o leve saborear da sua perda na luta, na raça e no querer das árduas tarefas conseguidas.
Fluídos perdidos num chão sumido pela permanência humana, jamais chegarão ao paraíso, ao descanso eterno, preferindo-se juntar nas tumbas sobre as quais, repousaremos.
Sangue, escravos da vida, usuários de um corpo sumido, falsos profetas de um nada que prometem e não conseguem, atrevam-se diante o olhar da morte, beijando-a e querendo-a para que a tortura não perdure e se manifeste menos dolorosa...

quinta-feira, junho 24, 2004

Caminhos !

Sentado num canto, arrumo-me entre paredes, completamente desalinhado mas hospedado bem no interior da alma e no fundo do subconsciente. Reparo na noite que cai, entrando-me pela janela e invadindo a pequena divisão em que me encontro. O lua segue alta e com ela, os primeiros feixes de luz trazem á tona uma claridade obscura. Sigo atentamente o recolher de mais um dia, o fim de uma azáfama constante e o términus de uma agitação ruidosa e consequente... Há muito que parei também. Não só e apenas por hoje, mas talvez há muito que o venho fazendo. Parei para pensar, observar e perceber um pouco o ciclo das coisas, não de uma forma racional e lógica, mas procurando respostas em algo diferente, em algo que nem eu ao certo sei se me poderá elucidar.
Apenas quis parar, sentar-me sozinho nesta divisão fria e triste em que o eco perdura, o vazio sobrevive e a falta de vida é agoniante. Limito-me a olhar lá para fora nesta perspectiva, vendo a escuridão tomar posse do imenso universo, e com ela, uns salpicos de pontos reluzentes, brilhantes e minúsculos, acompanhados lado-a-lado pela claridade do luar. Finalmente, a noite está no auge e assim se irá manter por largos instantes, até que o Sol rompa e se faça notar pelo calor e pela força da sua luz.
Levanto-me em silêncio, caminhando devagar e com imensa tranquilidade na direcção da janela e do meu ponto de encontro com o exterior. Olhando para cima, o sentimento é o mesmo que sentira enquanto estivera sentado, esperando por este momento. Tudo se encontra na mesma, desde a escuridão em tons de azul muito escuro, quase preto, passando pelos pontos pequeninos que identificam as estrelas e também, pela iluminação que a lua me tráz.
Baixando um pouco o olhar desde esses pontos mais altos, a visão vai sendo outra. Vai-se tornando diferente, mais complexa e fastidiosa a cada nível que se desce. Repara-se na acção humana, na luz artificial, nos movimentos das terras, nos altos edifícios, nos imensos caminhos que se cruzam e intrometem, e na forma como tudo isso é utilizado como se de objectos necessários á nossa existência se tratassem.
Decifro cada um desses pequenos "objectos" com uma facilidade enorme, distinguindo-os a todos, sabendo os seus nomes, as suas utilidades, os seus fins e principalmente também fazendo deles meu uso. Afinal, sou humano, tenho de viver segundo regras, imposições e conseguir usufruir de tudo o que já existia e tem sido criado á minha volta. Sinto-me cansado por tudo isto...
Satura-me o facto de percorrer todas estas ruas, cruzar-me com os mesmos edifícios, deparar-me com o mesmo género de pessoas, com o mesmo género de problemas, inquietações e receios. Satura-me o facto de não poder nem me conseguir ver livre desta prisão que me obriga a estar aqui e me sufoca constantemente. Satura-me dizer que ainda assim sou livre, mas sempre condicionado a uma liberdade que não me deixa sair...
Apetece-me libertar, exaltar e fugir... Para longe, para perto... não importa! Apenas conseguir sair para algo diferente, para gente diferente, para ruas e edifícios diferentes, para outros caminhos!
Largar tudo, todos e ir em busca de factos, de certezas, de enriquecimento interior. Largar um sedentarismo doentio e carente, sentir-me nómada, viajante no espaço e no tempo e com isso, sem regras, sem imposições ou restrições, aprender, conhecer, crescer e não criar raízes demasiado fortes num mesmo sítio, para que mais tarde não me cortem o tronco, dizendo que deixei de pertencer ali, àquele sítio, àquele lugar.
Ainda assim, esteja onde estiver, bastará olhar para cima, porque a escuridão será a mesma. Os "meus" tons de azul-escuro, quase preto, manter-se-ão inalteráveis, bem como os pequenos pontos brilhantes e bem como a claridade obscura da lua que seguirá alta.
Se um dia me arrepender de algo, que o faça porque o fiz, mas nunca por não o ter feito ou não ter tentado. Bastar-me-á olhar para cima, estando sentado num canto, arrumado por entre paredes, mas perfeitamente alinhado com os meus princípios e hospedado na direcção certa dos caminhos diante de mim.

quinta-feira, junho 03, 2004

Gótica !

Encontro-me no teu quarto...
Situo-me bem no centro, girando e olhando ao meu redor, toda a decoração que o veste.
A ausência de cor, de brilho e de luz, conferem-lhe um ar triste, assustador, escondido, mas ao mesmo tempo um lugar confortável e apetecível de se estar...
Tons de negro, com aspectos e artefactos metalizados parecem conceder-lhe uma sala de tortura, de morte e de meditação. As janelas fechadas, as cortinas unidas, rasgadas e gastas pelo tempo, condicionam a entrada de luz, existindo apenas a luminosidade que é libertada pela chama dos pavios que se espalham pelos cantos da pequena divisão.
A luz morta dos coutos que se gastam, combina perfeitamente com o forte odor exalado pelos incensos que queimam, libertando toxinas e consumindo o pouco oxigénio que ainda existe. É mórbido este ambiente, mas extremamente bom de se sentir...
Ainda olhando á minha volta, reparo nas imagens que decoram as paredes escuras, nos objectos que pendem de todo o lado e vestem tudo isto. Observo pentagramas pendentes, imagens de Szandor LaVey, inúmeros bruxos e crânios humanos, livros do desconhecido, do inquietante e do esotérico, manuscritos indecifráveis e compostos por um estranho e indefinido conjunto de símbolos, sobre os quais não me debruço, nem me interrogo, apesar de me manterem interessado. Numa pequena estante, um série de álbuns negros, alusivos ao medo, á morte e á decadência. Em cada recanto do teu quarto, encontro sensações novas, novos prazeres e novas formas de satisfação interior. Existe uma vontade imensa de me entregar a algo e ser aqui, nesta espécie de lugar de culto em que me encontro, o local ideal para uma nova doutrina e uma forma de exaltação interior.
Oiço em pano de fundo um som assutador, mas plenamente condizente com a realidade em questão... Deixo-me cair bem no centro, sentando-me, cruzando as pernas e absorvendo esta química de sons, cheiros e falta de brilho, enquanto medito e levito perante esta atmosfera. Lembro-me quando via o céu, a intensidade do sol e o movimento das nuvens como que uma visão maravilhosa. Nada comparável com este mistério que criaste e me estás a fazer sentir. Os campos verdes por onde me cruzei, as melodias doces vindas dos cantos dos pássaros são apenas memórias felizes e finitas de uma realidade...
Perante um novo olhar de escuro vestido, em que o chão se pinta de preto e em que os corvos se apoderam das melodiosas canções, deixo de lado qualquer situação de equilíbrio e teleporto-me até aqui... em mente e em espírito !
Continuo a busca pelos meus olhos, agora de um ponto inferior, vendo de baixo para cima e onde me sinto mais consumido, mas menos exposto ás pressões que irradiam deste interior... Reparo no teu leito, onde descansas e te possuis pela carga resultante de tudo isto. É belo, pelos símbolos cravados, pelos sinais transcritos de um qualquer lugar que não identifico nem descodifico. O ranger da porta e uma breve aragem pelas minhas costas, denunciam-te e mostram-me a tua pálida figura.
Diante de mim um rosto branco, sem cor, sem alma e sem vida, apenas decorado e realçado pelo preto que sobressai dos lábios, dos olhos e pela quantidade de adornos prateados que te enfeitam. Sem dúvida, que fazes parte deste mundo... Não poderia ser de outra forma, porque em cada recanto, em cada objecto ou em cada "algo", encontras-te tu, o teu toque e a tua imagem.
Curiosamente, o teu interior para comigo é diferente. Mais brilhante, radioso, simpático e afável. Interrogo-me sobre o porquê de seres assim e tento perceber como és, neste teu mundo isolado, que construiste e decoraste em torno da tua fé. És diferente aqui, mas contigo mesma, na dimensão da vida, na dimensão do teu "culto" e na tua forma de estar. Não te condeno, porque também me senti especial enquanto te esperava. Foi como um acordar do corpo e um agitar do espírito para o lado oculto que me consume e não entendo.
Ver-te chegar, interrompeu-me um conjunto de estranhas sensações que vinha sentindo penetrarem em mim, desde que aqui estou. Curiosamente, o teu sorriso pareceu ter apagado tudo isto e devolvido a vida a algo que parecia não ter condições para tal.
Ergui-me e respondendo afirmativamente ao teu cumprimento, olhei de novo em redor. Tudo me pareceu mera decoração, sem a ambiência ou sensações descritas enquanto me mantive sozinho... Nada agora parece fazer o mesmo sentido e nada sinto sobre o que aqui se encontra. A tua companhia trouxe-me á razão e o teu sorriso não reuniu o consenso de todas as coisas que aqui se encontram. Apetece-me sair, porque já nada disto é igual e se tiver de "vestir" algo parecido, terei de ser eu próprio a fazê-lo. Fizeram-me bem estes momentos a sós, em que parei, meditei e me deixei encantar pelo feitiço do teu mundo. Talvez me tenha levado a perceber porque somos diferentes, porque sentimos necessidade de nos fecharmos em conchas artificiais, protegendo-nos de pressões exteriores, procurando equilíbrio e bem estar de formas nem sempre entendidas por todos, mas sempre justas e concretas. Obrigado por isso...

sábado, maio 29, 2004

Despojos de vida !

Pelo vazio do momento, em que nem a mais ínfima gota de sangue parece fazer sentido, sento-me de cabeça baixa, ocultando o rosto de olhares provocadores e necrófagos, deixando que a pureza das lágrimas me lavem os dois lados da face e me corram pelo peito, purificando um coração duro e corroído pelo interesse de outros.
O suor, é o resultado físico de um calor artificial. Calor esse que me sai dos poros através de um batimento acelerado, estranho e descompassado. Talvez seja da raiva, do desespero e da vontade em libertar o ódio e o rancor. Olho as palmas das mãos, molho-as com a secreção do meu olhar e virando-as do avesso, aperto-as fortemente, como se esmagasse e libertasse uma fúria que tanto desejo soltar...
Interrogo-me continuamente, sobre a dimensão da vida, da utilidade do corpo, da utilização da mente. Não sinto honra, desejo ou algo grandioso... Limito-me a pisar despojos de uma guerra interior, sentida, absorvida, gasta e em nada saudável.
Água benta que me percorre o rosto, lavai e purificai-me o ego, trazendo-me o objectivo porque tanto ambiciono, sem o conseguir sequer identificar ou distinguir. Quem sabe, se sentir o sangue que me fervilha sobre a pele e o derramar por uma causa, possa atenuar e compreender.. Talvez uma pedra jazida sobre o cadáver, não seja desonroso nem sinal de fraqueza ou impotência. Talvez um sinal de uma força sobre-humana para a aguentar, sobre o corpo morto, gasto e usado pelas amarguras, pelo sofrimento e pela falta de auto-confiança e amor próprio... Ser o mais forte, sim... Até neste sentido sei que o sou !

quinta-feira, maio 27, 2004

Morte-viva.

Ver-te-ei nos meus sonhos, entrarás neles de uma forma proibida, horrenda e assustadora... Abraçar-me-ás com o teu corpo putrefacto e com o medo, simplesmente me poderei deixar levar. Pela aldeia, os mortos descansam, os vivos receiam e as estranhas criaturas entre nós, deambulam e cambaleiam vindas de todo o lado.
Apenas tu nos poderás livrar delas, eliminando-as e restituindo o sossego e a paz em tanto desejada. Só aqui, no nosso recanto nos sentimos bem e protegidos. Justamente aqui, ninguém entra sem permissão de nós mesmos ou da pura vontade de quem quer estar connosco. Não te quero, não te agradeço, porque também te odeio e em nada me trazes de bom. Soas-me a um mau prenúncio, a um medo legítimo pela figura que ostentas e isso deixa-me sem pinga de sangue. A mesma falta de sangue dessas criaturas que connosco co-habitam e há tantas gerações fazem parte do nosso imaginário real.
Que fizeste tu, a uma cara-metade que te compunha, te vestia e não deixava a descoberto a tua pele irrascível de sentimentos e nobreza ?
Foi a tua falta de amor, de afecto e excesso de frieza que a levaram a procurar outros caminhos, novos desenlaces e a um preenchimento colectivo que nunca lhe proporcionaste.
Se a substituiste pela morte, é credível que te venha buscar, venha ter contigo e te cobre aquilo que lhe é inteiramente justo... Porém e apesar da morte que a acompanha, está bem viva. É na monstruosidade da imagem que foi construindo e se moldando em seu redor, por tua pura e única influência, que sente ciúme, não te perdoará e muito menos a quem te acompanhar.
Procuras agora, o mesmo amor que não deste, nessa primeira que te apareceu e é com ela que incitarás a vingança e o desejo de cobrança! Entrega-a quando estiveres diante deles, porque a alma que te veste e mantém, é podre e de nada poderá valer.
Procurarás o mesmo refúgio, o mesmo recanto para te protegeres, mas será tarde...
Negar-te-ei a entrada, para não provocar em ti o que tantas vezes fizeste noutros e deixarei que eles se regozijem contigo, te consumam e te deixem fazer parte deles.
É contudo o teu mundo, meio vivo, meio morto, porque mesmo humano, nunca senti que fizesses parte de nós... É justo que nos odeies !