sexta-feira, novembro 09, 2007

Fogo interior!

Acordado e sozinho na minha cama, oiço as vozes do coração que instantaneamente me surpreendem pelo que dizem e me fazem pensar. Na escuridão do meu quarto, sinto um querer e uma vontade em libertar estas vozes pelo meu ego, ainda que escondidas pelo peso das palavras, das frases e dos ideias que possam conter. Parece doloroso soltar-me perante isto, sendo que a maior voz acaba por me pertencer e ter a capacidade de decidir sobre o afogamento ou o grito do meu interior. Deixamos coisas soltas, sozinhas e despidas por aí, mantendo o desejo de nunca as encontrar, embora as usemos vezes sem conta como forma de camuflar feridas, cicatrizes e tudo aquilo que ao longo do tempo nos marca e nos molda a cada segundo. Não me sinto o último, muito menos o primeiro de uma lista que corre sobre arame farpado e se deixa ferir pela passagem de um caminho exíguo, estreito e complexo. Quebram-se obstáculos numa brutalidade arrepiante, deixando que entre uma luz intensa, passível de nos ferir o olhar e quase nos cegar. Estranha contenda num mar de dúvidas, onde as vagas nos esmagam e sufocam, mas limpam de um certo prurido e devassidão. É tão somente um final que tem de prosseguir o seu rumo, engolindo as mesmas vozes que aqui dentro se tentam libertar. Não me sinto apenas eu...

sexta-feira, setembro 28, 2007

Fragmentos!
A distância corrói, aniquila e destrói qualquer ser humano, cuja vontade de regressar se torna o maior dos objectivos e permite que a mesma ansiedade que tanto o prejudica, o sufoque, o aperte e quase o mate... A saudade de aqui voltar era imensa, o desejo igualmente forte, mas quando as ideias, os pensamentos e até mesmo certos objectivos se tornam primordiais perante as imposições da vida, obviamente que tudo se esquece, tudo fica para trás e muita coisa parece deixar de fazer sentido. Vivi novas experiências, algumas menos boas, outras nem tanto, mas desta feita e não conseguindo novamente salientar a minha assiduidade, espero satisfazer o meu principal intento, que será sempre e sem dúvida, o de dar azo à minha mente, expôr o meu coração e abrir-me perante as incidências de um ser que palmilha um trajecto ao longo da vida...
Levanto-me cedo, muito cedo...
Caminho por entre chalés, belas moradias, rua abaixo, sentindo pequenos raios de um calor, cujo Sol meio envergonhado, me faz questão de oferecer. Desço em direcção à baía, ao encontro com o mar onde os barcos abandonados e ao sabor da ondulação, denunciam um ambiente de saudade, se solidão e de muita paz. Mais ao lado e em terra, a fachada da igreja mostra-me o dom da vida pelo baptismo, a alegria pelo casamento e a despedida pela morte que em cada um desses dias a compõe e preenche. Retiro-lhe o olhar e deambulando pelo tempo, reparo numa pequena azinhaga de pedra, onde pareço ver um homem velho com uma pequena mala de pele, castanha e gasta pelo uso... Parece conter um segredo, talvez fale sobre o amor, sobre conquistas, sobre descobertas, quiçá sobre uma revolução, onde uma pequena criança, fecha a boca das armas com um pequeno cravo vermelho. Talvez seja tarde, pareça noite pelo silêncio que me envolve e olhando novamente para o lugar de culto, alimento a minha fé, imagino a senhora que ouve a minha prece, que sente a minha terra, que segura a minha alma tantas vezes partida, tantas vezes desfeita...
Sinto-me libertar, quase levantando-me de uma queda em que a luz, o olhar divino e sagrado me parecem soar a fantasia, a sonho, a algo que só a minha cabeça imagina e alimenta. As guerras que sempre nos acompanharam, parecem não estar mais aqui... Tudo parece ter sido esquecido, resumido a pó, ficando resquícios levemente pincelados de choro, de vozes sofridas, de corações destruídos, de sangue derramado, de veias abertas... O tempo tudo compõe, mas nada esquece!
A saudade vem a nós e por vezes atraiçoa! O desejo de sentir aqueles olhares distantes, aquelas mãos gretadas, aqueles respirares de outrora, de outro Sol, de outras madrugadas, não conseguem agora unir-se na minha pele. Outros tempos, em que o mundo era outro, as vozes, os passos e até mesmo as formas de paz e de guerra, eram sentidas além da nossa forma actual de sentir. Outras leis, outros fundamentos que aqui procurei entender e não consegui alcançar...

terça-feira, julho 31, 2007

Ressurgimentos...

Literalmente volta-se à vida, ergue-se do nada, humana-se com a força final de uma energia parcialmente morta. Ressurge-se, reaparece-se, renova-se e reencarna-se num poder sectáriamente destruído. O misto de convalescença, fraqueza e resistência, confundem-se num todo...
Talvez regresse, quiçá de um modo menos denso, mais absorvido, transpirado e respirado até à exaustão... Puxem-me!

segunda-feira, junho 18, 2007

A imortalidade do ser e do sentir!

Imortalidade, tão somente um viver a vida eterna, um estranho sentimento de poder, de vida e combate em que a razão perde a lógica pelo desespero de uma entrega impossível de atingir. Vivo sem saber onde, confinado a espaços onde o lugar de estranheza se transforma em abismo, onde me prendo, onde me agarro e onde me entendo pela plenitude de uma vida eternamente infindável. Sustenho-me, debruço-me, quase me deixo engolir e mesmo vencido pelo cansaço, jamais perderei o ser por um sentir demasiado sentido… Complexo?
A própria génese da imortalidade comunga-me, toma-me o físico, consome-me o mental e absorvendo-me num todo, permite-me dissociar ambos os estados, num perfeito estado de equilíbrio e perfeição. Tenho-a sem procurar, além da vida, depois da morte…
Mesmo sem a ver, sem a sentir, sem a encontrar ou julgar e apesar de sempre a viver de perto, dentro de mim, em sangue e na alma, é o espírito da mesma que me corrói, me desgasta e permite este estado de sofreguidão total e intensa.
Para que a quero afinal? Para quem passa a meu lado poder senti-la com a mesma experiência, com o mesmo sorriso e queixume e simplesmente fazer de mim um estranho modelo a não repetir? Não sei… Cansa-me embora a ame. Quem passa, marca no fluxo o passado, o presente e o futuro. Quando passam, tudo foi, nada é, algo será… Sou e sinto-a bem cá dentro. Para todo o sempre!


PS: Dedicado a uma pessoa muito especial que me desafiou a um 101º post. Um grande beijinho.

segunda-feira, junho 11, 2007

Términus...
Eis-me chegado ao fim do meu percurso...
Amei de coração um trajecto iniciado há alguns anos, pleno de sentimento, repleto de coração e preenchido com uma presença mais ou menos assídua, sempre com o desejo e a vontade de aqui voltar, de aqui parar um pouco o tempo e de aqui me permitir encontrar com as dúvidas, com os lamentos e com tudo aquilo que desejava alcançar.
Aqui sorri, permiti que a pulsação acelerasse ao sabor da mente, despertasse sentidos, suando e transparecendo tudo o que sou, num simples mas intencional conjunto de palavras e caracteres. Sorri de satisfação quando senti cada frase em harmonia com o meu sentir, chorei quando a necessidade de dizer algo mais bloqueava, limitando a minha súplica e o simples desabafo...
A inspiração, essa, vertia em cada recanto da minha vida, encontrando-a em pensamentos, em experiências, em melodias, em ambientes perfeitos para a relatar, tomando notas, usando mnemónicas e cábulas mentais para mais tarde debitar em simples textos e palavras, tudo o que me permitia sentir, saborear e viver...
A pele de actor solitário, usando apenas a escrita como tela de representação, vestia-a a todo o momento, encarnando o espírito dos dizeres, das ideias, quase como que viajando sem rumo, sem trajecto, sem nexo, mas pleno de realismo e convicção. Saudade? Talvez terei...
Quiçá, possa voltar um dia, quando abraçar novos projectos, novas ideias e com tudo o que isso envolve, poder sentir a necessidade de me expandir, de voltar a querer gritar bem alto o que me mova, o que pense, o que deseje sorrir e chorar, tentando encontrar novas respostas para as constantes e contagiantes dúvidas que me sufoquem e apertem...
No fundo, a maior felicidade além dos simpáticos comentários, pedidos pessoais e agradecimentos, foi mesmo ter dado o passo para algo que de tão simples, terá sido um complexo mas apetecível desafio. Fi-lo por mim, apenas para mim, tendo a saborosa gratificação das críticas construtivas que ao longo do tempo, todos foram deixando. Aprendi que a morte e o epílogo das coisas, não será necessariamente um fim. Acredito que a partir daí, o começo de algo será mais forte, mais intenso e sem dúvida bastante mais proveitoso. Apesar das lágrimas que teimosamente tentam verter neste momento dos meus olhos, peço-vos que exista sempre em vós, o mesmo amor, paixão e sinceridade que aqui sempre derramei... Obrigado por tudo.
Até sempre!
Retalhos!

Os estandartes que voam nas praças, acompanham uma multidão apressada de correrias, de pedintes cujos olhares tristes suplicam por esmola, de gente que tomba pela doença, de rezas suplicando pelo objectivo, de pessoas que lutam pela fama, poder, riqueza, de despreocupados e entregues à preguiça, vencidos pela televisão, pelo entretenimento, pela acomodação...
A fome, a mesma e a única que não se cansa de pedir um alimento tantas vezes duro e sem apetite, lado a lado com o gesto agressivo, com as mulheres empoleiradas nas janelas, cochichando e servindo enredos difíceis de compreender, com o crime, desde o simples roubo ao mais complexo esquema de violação de normas morais, passando pelo artistas de rua, tantas vezes sem graça, tantas vezes tão correctos e perfeitos...
A espera pela prostituta numa esquina gasta e usada pelo tempo, o anúncio descolado numa parede velha e sumida, o trânsito sem nexo e coerência, o sonho vencido pelo pesadelo, a confiança derrubada pelo medo e incerteza, o triste retrato da morte estampado num jornal velho, pisado pela alegria de quem ganhou a fortuna e sorri de uma felicidade desmedida...
Os bêbados e drogados, tantas vezes entregues ao vício de algo que não lhes preenche o buraco da alma, mascarando-o por breves instantes de algo superior e perfeito, surreal e absurdo.
O espírito de tudo isto, unido numa pequena manta que nos cobre, nos veste e ainda assim nos deixa gelados e completamente vulneráveis a tudo o que nos rodeia, faz do mundo pequenos retalhos da vida, de um qualquer lugar em que este espaço imundo me deixa cego, surdo e mudo, não porque não queira ver, ouvir ou escutar, mas porque ainda assim, me engole e é capaz de me tentar mudar...

terça-feira, maio 22, 2007

Dançando!

Dança comigo, abraçando-me e colando o teu corpo no meu, despertando a sensualidade e o instinto de ambos, permitindo que sejamos um só, um no outro e onde a harmonia dá lugar ao entendimento...
Cada porção do teu corpo aninha-se em mim, tocando-me e entrelaçando-se como puro magnetismo e embora seja apenas algo físico, a envolvência que de nós se apodera, faz-nos transportar para lá do simples ritmo que nos move. Sempre que dançamos, deslizamos como água num curso fluente, directo, organizado e sempre com o desejo de um desaguar perfeito, estrondoso e arrebatador. Fico perplexo, possuído e envolto por uma aura divina quando te sinto por mim, com o desenrolar do teu saber, da tua agilidade e mestria... Acaba por ser um sentido, um rumo, um trajecto, um consumir e um esbanjar de energia, um cansaço apetecível de prazer e objectivo. Sentimos demais, queremos mais, vivendo para além do possível, desafiando a física, ousando os limites de um corpo já por si trabalhado em prol de um sorriso, de uma satisfação e de um bem estar único e inexplicável.
Para todo o sempre, seremos eternos enamorados de uma paixão onde o verdadeiro amor não está em nós, mas sim no que permitimos sentir por entre nós. Mais do que uma coreografia de movimentos aliados a ritmos de melodia, está sem dúvida a paixão que por ela temos...
Abraça-me! Dança comigo!

sexta-feira, maio 18, 2007

Pavios!

Na tarde mais distante de um dia tardio, esperava que a vida nascesse, amasse e findasse, vivendo de um sono calmo, secreto e tranquilo, espreguiçando a saudade e os pesadelos que morriam de difícil verdade e complexo sentido...
O olhar enternecido pelo lamento, atrasado no beijo de um suspiro retardante, sugava-me o foco de uma luz fraca de aparência e palpitar cambaleante, desunido no ardor do momento e aguardando por um tempo que por pouco vestia, unido na comunhão de um prazo, que lentamenta sufoca e aos poucos, contagia...
Mantendo no luar o sol de um calor iluminado, absorvo a alquimia desta estranha magia, casando as estrelas com os astros em completa harmonia, vivendo de feixes de verdade, tal qual uma vida, abandonando o pó e as impurezas gastas, por longos ventos de investida. Casando noite com o dia, na mais bela aura do sentimento, adormecendo silêncios nocturnos, com soturnos momentos, vivendo cruzado de aromas e cheiros de um ar consumido, nascido e usado por força de um sopro corroído...
Sinto os instantes, ardendo no fogo que a madeira consome, virado do avesso, como um mundo azíago de miséria e fome, doendo de um ardor perfurante e gasto pela sorte, onde a noite se veste, escurece e aos poucos se absorve...
Que a tarde distante do meu dia tardio, alimente a manhã da minha noite e a noite do meu dia, consumindo a madrugada tal como um pavio, onde me acabo, termino e facilmente me findo...

terça-feira, maio 08, 2007

Retiros!

Gosto do teu espaço, do teu aprumo, do teu recanto...
Daqui, observam-se os telhados gastos pelo tempo, as imagens escurecidas por uma densa manhã de nevoeiro e uma singela neblina que nos engole e deprime. Sabe bem estar sentado neste soalho de tábuas largas, ter diante de nós uma cidade que lá em baixo se move, se muta e aos poucos consome o tempo de mais um dia em que a realidade pouco ou nada se altera. Colo a minha testa no vidro da enorme janela de madeira que me separa das ruas, das vielas e dos imensos recantos desta paisagem urbana. Ao longe, o rio parece sereno, tranquilo e estranhamente acomodado. Encosto a nuca na parede, chegando para mim os joelhos, abraçando-os e deixando-me ficar encolhido numa posição extremamente agradável. Olho para o tecto da casa, imaginando o que cada pedaço de pedra, de areia, de cal e de madeira, me poderiam dizer caso falassem. Os séculos que passaram, deixaram as marcas de um tempo infindável e a vontade de libertar tudo aquilo que por aqui viveram. O cheiro adocicado e lúgubre das casas antigas agrada-me, conforta-me e confere-me uma enorme sensação de segurança. Apesar da sua debilidade natural, as imponentes fachadas dos edifícios antigos são a principal razão para me sentir seguro neles, como que amedrontando a física através do seu aspecto resistente. Gosto do sossego que aqui encontro, da paz destas divisões e até mesmo da escadaria em madeira que treme e soluça a cada passo. Encontro a felicidade quando aqui venho, quando tenho as chaves deste minúsculo retiro e me permito fazer dele, o meu lugar de meditação, de bem estar e prazer. Sabe bem ver que nem tudo é mudança, que nem tudo é remodelado ou destruído e que à semelhança de um qualquer objecto dos nossos avós, também aqui se consegue estar e usufruir deste espaço com o mesmo cuidado com que estimaríamos a mais bela preciosidade. Sabe bem esta nostalgia, este sentir, esta saudade que apenas nos recorda a infância, embora tudo permaneça intacto e da mesma forma. Aliás, a única alteração terá sido nós mesmos... A beleza intrínseca da paisagem interior e exterior, nem se moldou sequer aos tempos modernos, mantendo por isso a mesma talha artesanal, os mesmos traços de antiguidade e a mesma postura ao nível do horizonte. Fecho os olhos... Procuro os sons perfeitos, os cheiros equilibrados para tudo isto, os sabores que por aqui preencheram as línguas sequiosas e que tantas vezes lhes terá servido de alimento... Aqui viveram pessoas, aqui se criaram crianças, aqui muitos se terão tornado homens e mulheres, e até aqui, muitos terão partido para o encontro divino com a vida eterna. Será talvez e tão somente um singelo edifício, um simples prédio antigo da minha cidade, mas mais importante que isso, é o encontro que aqui vou mantendo e a bonita sensação de, por breves instantes, pensar que consegui parar o tempo e aqui lhe falar.

sexta-feira, abril 13, 2007

Paixão!

A doçura estampada no teu rosto, na ternura dos teus olhos, por onde me oculto do choro, por onde me fazes sorrir e mergulhas, transforma-me por completo e deixa-me rendido ao magnetismo da simplicidade do teu existir, vivendo em mim como a mais bela recordação de um tempo, de uma dádiva, de um verdadeiro sentimento…
Abençoado por este soberbo dom, agradeço o que recebo, o que dou e com o que vibro na singela presença de algo tão especial. Talvez o divino te tenha enviado, talvez um dia me tire, talvez tudo não passe de um sorriso angelical por uma troca amarga e azíaga, de um tempo que já findou, que marcou e se fez notar por uma curta mas vincada passagem. Que aprendizagem foi esta, ou que sinais terei eu descoberto com pequenos laivos de dor, pincelados de sentimentos, suavemente salpicados com cores esbatidas e sem nexo, transparentes ou mesmo distorcidos? Seria dor, mágoa ou simplesmente a nova sensação de um sentir que jamais pensaria voltar a ter sobre alguém?
Parece-me que a descubro novamente, com uma chegada curta e directa. Torna-se semelhante a algo quando sentes que existe e não sabes como te alcança, como o amante de quem sentes falta se apodera de ti, te embala e adormece contigo, aconchegando-te nuns braços doces, fortes e quentes nas noites frias de solidão... Quando a tocas e permites o mesmo, sabes e consegues segurá-la de um modo tranquilo, ameno, feliz, sentindo agora o conforto interior como um beijo sincero, como um abraço apertado, como um sorriso de esperança que tantas vezes julgaste perdido na imensidão do olhar. A tristeza que se viveu, ninguém a entendeu, talvez ninguém se tenha sentido tentado a fazê-lo, sequer…
Bastou um sorriso, ainda que timidamente parecesse frio e ainda que o suspiro tivesse sido nervoso e atabalhoado. Bastou apenas isso, para aprender na espera do tempo, que tudo recomeça, que tudo se inicia, que nada parece feito…
Quando se descobre, direi que finalmente existe! Chega entranhando-se de um modo lento, sem palavras ou melodias, transformando-se na mais bela das memórias, tornando-se parte de nós, alimentando-se para a eternidade, fazendo-se uso dela em cada etapa ou em cada pequena acção que tão simplesmente se pense realizar...

quinta-feira, abril 05, 2007

Explosão de cor!

Ainda embebido pela escuridão do sono, abro vagarosamente a cortina dos meus olhos, permitindo que o brilho, os contrastes, a cor e a nitidez formulem imagens, dêem forma ao que atinjo e me deixem seduzir pelo alcance da visão.
Ao longe, os primeiros feixes tornam-se evidentes, perceptíveis, contagiantes... A busca e o desejo de alcançar para lá do olho nú, acentuam-se, adensam-se e formulam em mim, a secreta esperança de um horizonte mais nítido, límpido, cristalino e livre de interferências. O constante e frenético processo de dilatação das pupilas, contagia a minha mente, mergulhando-a num vasto mar de cor, de forma, de texturas e de materiais, mantendo-me embriagado e sedento pela envolvência de um ambiente cada vez mais próximo. Os espectros visuais confundem-se, misturando as simples tonalidades do círculo cromático, com a a complexidade da área suavemente pixelizada e colorida.
Tudo ganha forma, tudo se veste em tons de agradável absorção e entendimento. Longe ou perto, a focagem completa-se com um fácil automatismo do meu obturador visual, com a irrigação de um campo suficientemente abrangente e sempre através de uma perfeita luminosidade, para que nada se torne demasiado denso ou invisível. As explosões de cor, sucedem-se, multiplicam-se, realizando-se num breve fechar de pálpebras, num pequeno e singelo pestanejar sem que nada se perca, sem que nada se abandone ao acaso, transformando cada pequeno slide, num película gigantesca e contínua.
A suavidade do que vejo contagia-me, não deixando que o ruído visual, perturbe as imagens que em mim se vislumbram. A imensidão do que alcanço, é tentadoramente bela!

segunda-feira, abril 02, 2007

Loucura!

Ambientes medonhos, soturnos e lúgubres, sombras em becos, vozes que ecoam actos despidos, excessivamente labirínticos em torno de um intenso mal-estar...
Estado de demência e loucura, condição da mente humana onde a sinto solta, bem viva e sempre pronta a atacar a paz generalizada de mentes desprotegidas. Adoro a demência bajulada com os seus cativantes comportamentos, motivando a curiosidade, espicaçando opiniões, absorvendo os mundos onde por momentos, a lógica natural é posta em causa e se questiona onde começa e termina o estado da insanidade.
Absorvo-te em mim, esperando que estranhes e depois te entranhes, com toda a estupidez das barreiras sociais, do senso comum, da ignorância doutrém, conseguindo desta forma, escoar o produto do desassossego da minha mente.
Actos impensáveis, situações surreais com atitudes submersas, ambíguas, incoerentes, cujo sumo dessas asserções, reside na mecânica e nas mensagens ocultas ou inerentes a uma temática malévola, descabida, perturbante, de uma constante inconstância que perdura e teima em não abandonar a mente inquieta. Alinham-se imagens perturbadoras, subvertendo pensamentos e sentimentos...
Mesmo embrenhado pela loucura, nada mais sou que um escoador de sensações e de momentos, usando o grito e o anormal comportamento para em pleno, a libertar!

terça-feira, março 20, 2007

Mensagens!

A imensidão azul diante de mim, cobre-se de negro com o cair da noite, não deixando qualquer recado, sendo impossível decifrar na escuridão do teu olhar… O clima sombrio, a brisa com a sua sonoridade aguda e o vento gélido que sopra, não assustam porém, a determinação dos meus passos, nem do trajecto a percorrer. Ao longe, o que a natureza escreve e passa despercebido, foge-te do olhar sem que notes, retirando-se e sumindo sem que te dês ao luxo de o visitar. Escrevendo na noite, escrevendo numa folha escura, de letra desordenada e assustadora, com tinta negra e sumida, o que não importa, não se decifra. Ditando para o luar ou talvez para o mar, mas sem luz radiante, pode ser que me consiga libertar da garrafa neste oceano… Afinal não és navegante de primeira viagem como eu e pode ser que tenhas curiosidade pelas palavras, pelos sentires e pelos dizeres. Há muito que sou a mensagem no interior deste vidro transparente, tantas vezes opaco, tantas vezes sombrio e caso possas encontrá-la, tenta, mesmo no meio da escuridão, ler o conteúdo do papel turvo e apagado. Já é alguma coisa, seria valioso! Aí sim, estarás distante do mar, perto de amar…

segunda-feira, março 19, 2007

Sonho!

Parece tarde...
Sinto o avançar da noite de um modo rápido, violento e directo. O sono parece ter-se extinguido por hoje e diante do sossego e da tranquilidade deste tempo que corre, apodero-me de um copo cheio de ilusões, em busca de uma tentativa vã de força e de descanso. Sentado nesta divisão, oiço passos na porta em frente, cuidadosos, periclitantes, femininos...
Apetece-me observar, saber quem entra, quem partilha comigo este momento tardio de vazio e de espera demente. Do outro lado, reparo na dificuldade em fazer rodar uma simples fechadura, no desespero com que o faz, no tempo que se esgota e enerva cada vez mais... Sorrio maliciosamente, comparando a minha noite calma e tranquila, em contraste com o final de dia conturbado de um vizinho noctívago. Os passos, agora mais fortes e descompassados, vêm ao meu encontro, terminando num bater forte e seco na madeira da minha entrada. O meu ritmo cardíaco acelera, surgindo em mim uma estranha indecisão sobre a atitude a tomar. Consumo segundos, alimentando o desespero da mulher que paira do outro lado. Decido-me a abrir, meio estremunhado pela escuridão da noite, convidando-a a entrar.
Os nervos afectam-na, consomem-na, não permitindo que consiga articular de um modo tranquilo tudo o que a apoquenta. Aconselho-a a ficar, a deixar esperar pela manhã e fazer com que se acalme, encontrando no meu retiro algum sossego e repouso. Acede-me assustada, seguindo-me de encontro à divisão onde a deixarei pernoitar. Volto ao meu quarto sorrindo, novamente com malícia, mas sem intento de algo mais, adormecendo tranquilamente...
Findo a noite e já pelo novo dia adentro, acordo consumido por um sol deliciosamente convidativo. Reparo no lado contrário da minha cama onde jazem peças de roupa interior e um "obrigado" suavemente perfumado. De nada me lembro, de nada sei ou senti...
Sinto-me confuso, perplexo e desconcertado, culpando simplesmente o copo cheio de ilusões. Apenas me parece que tenha sonhado! Nada mais...

Pesadelo!

A visão diante dos meus olhos, encurrala-se e afunila-se de uma forma esmagadora, caída e adormecida de verdade, subindo a cada pequeno passo e custando apenas e tão somente, o elevado preço da minha indigente vida. Escuto-os num aproximar ruidoso que me arrepia o mais ínfimo osso, correndo lado a lado com o tempo, descendo as estranhas colinas do logro e cercando-me sem sentir… O pesadelo sabe-me a morte, a sangue, a um desmonoramento patente e viscoso, lento, exíguo, exigindo-me um acordar repentino, frenético e real. Talvez com o apagar das almas, com o vigoroso despertar da morte e com a extinção de um espírito vivo, tudo se afunde, se escoe no inferno em que me insiro e desapareça com o que sou, resumindo-me apenas a um singelo e inebrioso pó. Tentei durante a noite, não encontrando vestígios de ser alcançado… É como se tivessem apenas desaparecido, sabendo de antemão a distância a que se encontram, sentindo-os aproximarem-se arrepiando-me, esgotando o tempo que ambos dispomos, vindo ao meu encontro e dilacerando-me de um modo nú, primitivo e imaginário. Resistirei debatendo-me, lutando e não permitindo que me entregue. Comecemos a matança lado a lado, por nós, por ideais diferentes, por razões opostas e imperceptíveis em relação ao outro. O pesadelo mantém-me estranhamente acordado, vivo e assustado, lutando a minha mente neste estado opressivo e de aflição, querendo que me acorde, me desperte e me transporte à realidade concreta.
Finalmente, o meu sol vai aparecendo, levando consigo os gritos dos que me atormentaram, dos que pereceram e extinguindo todos os outros que ainda atordoados, permaneceram de pé. É este o final do que ambos começamos? Lembrar-nos-emos do que ambos teremos feito de errado? Direi que não! Foi tão somente um sonho mau, em que a irrealidade se apoderou de mim num estado demasiado possessivo e de estranha utopia ou ilusão… Detesto pesadelos!

quarta-feira, março 14, 2007

Toque!

Suave sensação de prazer, de afecto, de entrega...
O odor corporal, remete-me para o limiar do instinto, permitindo que o toque se complete na mais primária absorção do teu ser. A pele, o instrumento perfeito para um frenético esboçar de sentimentos, de entrega, de movimentos ondulantes num cadenciado vaivém de prazer, de romantismo, de paixão doentia, de expressões complexas, de irrealidade...
O culto do corpo, descreve-se por si só num ondular disforme, numa procura e busca desenfreadas pelo conforto, pelo consolo e comodidade, tentando uma inserção perfeita numa básica e correcta absorção do outro. O apetite voraz que nos habita e consome, deixa-nos entregues a uma explosão de várias tonalidades, a transformações químicas tão rápidas quanto instintivas, a um sem número de abstracções e complexo alheamento do que nos rodeia.
Derreto-me num revirar de olhos, num suor quente e repentino, num estranho e doentio pulsar de sensações... Quero-te!

segunda-feira, março 12, 2007

Impurezas!
Tempo, onde o mar me beija com uma espuma permanente, me seduz nos acentuados tons de azul e me deixa rendido ao poder, ao prazer e ao magnífico odor a imensidão e grandeza...
A luz espelhada atinge-me no núcleo do meu ser, prostrando-me diante de si, iluminado, abençoado, quase sentindo uma enérgica reacção de força, de devoção e crença, tão somente pelo acto de me deixar naufragar e engolir por este encanto.
O sopro diante de mim, convida-me a desejá-lo, o ruído cavernoso e barulhento das enormes vagas que rebentam, tenta-me a escutá-lo cada vez mais perto.
Mais do que o descrever fisicamente, abunda-me a necessidade de o sentir, de permitir que seja apenas um de muitos factores naturais a influenciar o meu estado de espírito e o lento reagir a processos diários de uma vida tantas vezes complexa e inexplicável.
Consumo neste momento, o antídoto certo para um dos meus vírus...
Acabo de mergulhar, purificando-me em águas viajantes, na esperança de me libertar da sujidade que me inquieta...

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Códigos!

Fórmula do meu encanto, encriptada pelo desconhecido, decifrada apenas pelo dom da vida...
Parece simples o código genético e a divisão celular de uma junção estranhamente obtida. Contudo, a complexidade do ser daí advindo, remete-nos para múltiplas questões, dúvidas e incertezas.
Que passagem é esta afinal, que se compõe por um trajecto de início e fim de curso, que nos molda interior e exteriormente, nos modifica e transforma, nos usa e abusa sem que nada consentamos e no fim de tudo, mais não é que uma linha recta cheia de obstáculos?
A liberdade que julgamos ter em cada escolha, opção e desenlace, é fictícia. Seremos sempre condicionados por factores reais, sociais, fisiológicos, mentais, físicos... O prazer, por exemplo, não passa de uns meros segundos de satisfação, dando lugar a pequenas depressões quando o deixamos de sentir. A vontade, assenta em critérios de força, de luta, de conquista e de múltiplas vertentes de coragem para transpor metas...
Em cada canto e aresta pairam soluções, ainda que se assemelhem com muros intransponíveis em que a única decisão pareça ser um voltar atrás.
Algures, no mais recôndito poço da nossa mente, estarão as verdadeiras equações, contendo a solução adequada para cada etapa. Ainda que não se prove fisicamente cada dúvida, as respostas encontrar-se-ão sempre lá... Usem-se!

Metas!

...e ao centésimo post, findarei o meu percurso.
Não que me sinta cansado de escrever, parco de imaginação ou fluidez de sentimentos, mas porque entendo que por vezes é preciso saber onde acabamos, onde iniciamos novos projectos e essencialmente, termos a plena consciência do que somos, de tudo o que fazemos e tenhamos a certeza dos timings correctos para uma saída perfeita.
Foi um prazer imenso, um explorar sensações, uma forma corajosa e perspicaz de chorar por dentro, de rasgar a pele que me veste, de recolher energias, libertar forças, ajustar tempos, aliviar sentimentos...
No final de contas e após todo este tempo, tudo ficou por dizer. Parece que tudo foi vago, imperceptível, complexo... Mais do que querer sinónimos pessoais, comentários deixados ou mesmo sensações, o meu instinto foi sempre de mero desabafo, de visão alargada, de compreensão interior e do enorme gozo que toda essa ínfima pesquisa me proporcionou. Apesar dos elogios deixados, dos convites para me dedicar a uma escrita profissional, a minha postura manteve-se intacta. O objectivo, único e muito pessoal, foi conseguido na plenitude e sinto-me tremendamente realizado por isso. Nesta dezena de textos que ainda me faltam, continuarei a usar da minha palavra o melhor que sei, o melhor que vejo e o melhor que sinto... Ainda que tenha usado disfarces camaleónicos para melhor encarnar cada etapa, em todas elas houve sentimento, entusiasmo, sensibilidade, emoção e afecto.
Que haja tão somente amor e paixão em cada pequeno passo. A tudo se aplica!
Sossego!

Chove lá fora...
As gotas colam-se na janela, aguardando outras, esperando fundirem-se e acompanharem a gravidade que não deixa de as arrastar.
Cá dentro, a tranquilidade sossega-me. O silêncio imperioso desta divisão acalma-me, irradia paz e fortalece a minha mente. Fecho os olhos, medito parecendo ouvir uma linguagem zen, uma musicalidade divina, relaxante, tranquila, apaziguadora...
Visualizo imagens sem nexo, disformes, simétricas, semelhantes a uma visão caleidoscópica. As cores fundem-se, transformam-se através de ligeiros salpicos de luz e depressa passam para algo diferente, como se de uma breve mudança de slide se tratasse. Permaneço neste estado sem a noção de tempo ou espaço... Quero saber onde desaguo e de que forma o faço. Termino esta investida intemporal na escuridão! Encontro-me agora num buraco negro, sem contornos, sem obstáculos, sem luz... A música e o ambiente volatilizaram-se. Aos poucos, vou abrindo os olhos ainda embriagados pelos raios de sol que agora me invadem o corpo... Que recondita viagem acabei de fazer.

domingo, fevereiro 18, 2007

Paz isolada!
A escuridão protege-me, as sombras acalmam-me...
Liberto apenas o rosto num fraco feixe de luz, permitindo que a vida ganhe contornos de trevas.
Doentio? O suficiente para me fazer implodir num distanciamento entre o ego e a carne. O necessário para me movimentar no mais infímo interior... O lugar perfeito!

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Regressão!

Que bom seria, poder viajar no tempo e encontrar-me num qualquer período da minha vida, poder visitar-me em que altura me apetecesse e fazer uma perfeita regressão através do espaço, viajando e indo em busca de algo que por vezes tanta saudade me deixa...
Sabe bem recordar-me como criança, do cheiro dos lápis na primeira escola, dos dedos sujos e doridos pelas primeiras letras... Das tardes de brincadeira, em que no largo onde morava, empurrava caricas pelos passeios, jogava à bola com sapatos rotos e gastos pelos muitos pontapés que dava em tudo... Saudade também dos três grandiosos choupos que davam sombra todo o verão, em que se ouviam ruidosamente o bater dos ramos e folhas movimentadas pelo vento. Dos cães vadios, quase mascotes e companheiros de um bando de miudagem feliz e irrequieta... Da música que saía de uma janela com os sons da época, colocada por um vizinho um pouco mais velho e dono de uma infindável colecção de LP's... Grata recordação também da velha mercearia onde nos abastecíamos de gelados e odiávamos o dono por sempre nos tentar enganar nas saudosas moeditas de escudos... Do fantástico cubo mágico que tanto adorava, embora nunca o tenha conseguido ordenar sem batotice... Das correrias, das molhas que a chuva me dava, dos transportes velhos que tantas vezes usei, da vida difícil, dura e cansativa que tantas vezes me acompanhou... Dos carros que se vendiam na altura e hoje são vistos quase como sucata... Que bom é recordar o primeiro beijo, desmazelado, despreocupado, mas pleno de intenção... O cheiro do primeiro amor, dos amigos, dos colegas, das aventuras... Custa acordar e deparar-me que nada disto existe nem voltará a existir. O encanto e a magia desapareceram! A velha escola é diferente, os choupos foram cortados, as mesmas músicas tocam agora no meu rádio em vez de sairem daquela janela de madeira branca e sempre aberta de par em par...
O resingão da mercearia partiu, os amigos cresceram, tornaram-se adultos e fizeram as suas vidas... Tudo o que existia, desapareceu como feitiço! Choro no real pela saudade, sorrio na recordação quando regresso em pensamento... Soberbo!

sábado, janeiro 27, 2007

Números...

Mil passarás, a dois mil não chegarás...
Foi esta a permissa que desde muito miúdo me habituei a ouvir. Corriam as fantásticos anos 80 e escutar os cépticos, os crentes de antigas profecias e até mesmo os fanáticos do catolicismo, fizeram com que muitas vezes me interrogasse sobre a suposta forma do final do mundo. Cresci com milhentes ideias, alimentadas por gente receosa, inculta e tantas vezes arrastadas por uma moral que surge em debandada e leva tudo o que consegue alcançar. Contudo, o meu medo nunca foi de um términus mais ou menos doloroso, mas sim de uma ansiedade que se apoderasse um pouco de cada mente e a retesse estática, deixando-a ao sabor de qualquer coisa que nunca saberia ao certo o que realmente pudesse ser. Talvez por isso e desde cedo alimentasse a ideia de encontrar o novo milénio fora de um local normal, procurando algo diferente, algo denso, permitindo-me assim, observar atentamente o passar do tempo.
Fi-lo fora do país, sabendo de antemão que o oriente alcançaria um número tantas vezes receado, muito primeiro que eu. Nada de estrondoso ou de muito diferente. Foi apenas uma marca... Marca essa que estou também aqui, prestes a alcançar. Não em anos, mas em número de simpáticas visitas. Nunca foi meu intento publicitar um canto escondido na mente de homem que a espaços se solta, mas sim ter o secreto desejo de vestir uma pele obscura, retratando o mais possível e com a máxima precisão do real.
Um de vós alcançará um número enigmático... Agradeço por isso.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Solos sagrados!

Piso-te a entrada através de uma escadaria densa, polida e tremendamente gasta...
Cada pedra conta um conto, uma passagem, uma história de lendas, de fantasias, de realidades e ficção. A arte mistura o gótico com o sagrado, a escuridão com pequenos laivos de luz, o tenebroso com o obscuro... Amedrontas, mas reconfortas! Em ti peço perdão, orando, crendo na ressureição, na redenção do pecado, na constante busca de uma salvação proeminente e de contornos desconhecidos. Alimentas-me a crença pela paz de espírito, pelo desejo de uma vida objectivada de princípios morais e valores espirituais correctos. Sinto-me bem em ti, ainda que me assustes. Que a alma de cada um, habite num só corpo... Que vá ao teu encontro em cada lugar santo. Na morte, também virei aqui!

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Encaixes!

Na aura da vida jaz a sorte, aguarda-se pela morte, enfrenta-se o desconhecido...
Alimenta-se o medo, reforça-se a coragem, desmente-se o sossego, assegura-se a tranquilidade...
A hora tardia em que me carrego e transbordo, faz-me pensar, ousar em agir, raciocinar... O conjunto de frases flui, o pensamento aos poucos, faz por se denegrir.
Em cada momento, uma interrogação, uma inquietude... Tudo faz sentido, nada terá significado.
Assustador, polivalente e ambíguo... Nada é o que parece ser. A razão das tarefas, o objectivo das acções e o concreto das atitudes, desmembra-se entre notáveis vitórias, contrastando com a derrota em prejuízo doutrem. Insano? Não!
Apenas uma visão lata e mais abrangente dos princípios activos de um cosmos mais ou menos perfeito e por explorar em pleno. Tudo se molda, tudo se encaixa... Nada fica retido em igualdades circunstânciais... Na aura da vida, vive-se da sorte, aproxima-se a morte... Ver-nos-emos no desconhecido !
Sangue-vivo!

Sangue do meu sangue, cujo suor por ti se entranha, esbate e dissolve, como que absorvido e desfeito através do pulsar do tempo...
Provo-te quente, saboreio-te em cada papila, degustando e alimentando a sedenta forma de mim, do meu corpo, do meu ser interior...
Diferente e atroz a ferida acidental... Corte profundo, cuja incidência liberta o fluído da vida, soltando ardor e dormência, mas incapaz de magoar por dentro, de deixar marca vincada, ainda que por cicatrizes visíveis, se faça notar.
Sangue do meu sangue, conta-me em que artérias viajas, em que veias te situas, dizendo-me baixinho o real curso do tempo, do infinito e em que circunstâncias te perderás um dia...
Sangue do meu sangue, jorra como lágrimas, alimentando o chão com a pureza camuflada, mostrando à terra o coração que te movimenta, preparando-a para o repouso eterno...
Sangue do meu sangue... vive-me para contar!

sábado, dezembro 09, 2006

Instantes !

Onde estão os namorados, os amigos, os amantes e os laços de afecto e carinho? Em que sentido viajam os sonhos, as promessas depositadas no nosso colo quando a inocência nos vestia, as esperanças adocicadas num futuro risonho de verdes anos e as mágicas estórias de felicidade eterna? E as noites, estreladas e resplandecentes de um luar brilhante, alimentadas de palavras sussurradas ao ouvido e que lambuzavam e derretiam o coração?
Por que raio de caminhos e trajectos negros, sombrios e dispersos nos perdemos todos, como se hoje estivéssemos aqui numa terra desconhecida, rodeada de gente estranha, sem raízes, sem memórias, sem nada ?
As esperanças rasgadas em mil pedaços, deitadas ao sabor da brisa, levadas pelo vento para lugares onde ninguém as entende e deixando-nos por isso, rodeados deste silêncio ensurdecedor que nos enlouquece e ultima miseravelmente...
Percorremos os dias repetindo os gestos, mas uma vez deitados no nosso leito diário, a dor no corpo tolhe-nos e incapacita-nos, deixando a nú o cheiro e o peso da solidão. Que fazer com o resto dos dias, com os resquícios das ilusões manchadas pelas marcas do tempo, das desilusões vividas e da longínqua recordação do que um dia foi?
Alimento a esperança de agarrar o tempo numa outra vida. A experiência desta, encoraja-me...

sexta-feira, novembro 03, 2006


Escutando...

Deito-me no chão, colando o ouvido no solo como uma pequena ventosa.
Que estranho mundo se observa sob esta perspectiva... Ouvem-se sons do interior, anexados a um estranho zumbido que me ensurdece e estremece por dentro.
Tudo é diferente visto assim! Reparo nas ondas de calor diante dos meus olhos, na forma como os pingos de chuva se partem e se multiplicam quando embatem no asfalto, no som estridente do sapateado desta gente que se afunila e apressadamente corre. Acompanho o movimento ruidoso dos veículos, na velocidade dos mesmos e no rápido contacto das rodas no piso negro de alcatrão.
Os insectos, esses, parecem bem mais assustadores e intrigantes vistos de perto...
Sabe bem parar no tempo, cometer estranhas opções, loucos comportamentos e ficar prostrados em qualquer lado ou em qualquer algo que nos quebre a rotina e a monotonia.
Complexa esta minha forma de hoje observar o mundo, mas de plena vontade e consciência, que é apenas uma de muitas maneiras de ver e assimilar tudo aquilo que diante dos meus olhos, nem sempre vejo e compreendo. Talvez seja louco ou demente, pela simples forma de estar aninhado sobre estas pedras que revestem a terra por baixo de mim, mas quase adormeço como se na minha cama aguardasse pelo sono. Que leito maravilhoso descobri hoje...

sexta-feira, outubro 20, 2006

Fogo dançante !

Sentado pelos cantos, canto melancolia e tristeza, tentando adormecer.
Preso num emaranhado de promessas e falsas esperanças onde ninguém se parece assumir, jamais chorarei para mim, mantendo-me num deserto de sentimentos, alimentado por um oásis inexistente. Sem lágrimas de limpeza cuja intuito de me rejuvenescer e purificar se manteria vivo, apenas alimento diários de páginas vazias, escrevendo sem tinta, pensando sem coração, respirando venenos inglórios...
Canto nesta guerra, enquanto tudo arde, se destrói e consome, no choro compulsivo de quem não entende a mentira, os sonhos, o ódio ou mesmo a dor.
Sentado no meu canto, apenas observo a raiva contida de quem tudo perde, de quem tudo sente que afinal para se viver nada é preciso, deambulando através de uma vida fútil e sem significado perante cenários de destruição. Consumidos por máscaras de anos de fachada, pilham e vertem o sangue que o poder construiu, incapazes de me ver sentado neste canto, envolvido numa mesma luta, embora de contextos diferentes.
Contemplo a azáfama do desespero, da raiva primitiva, da ausência de valores morais, enquanto tudo se reduz a pó. Divirto-me sorrindo, sentindo que aos poucos se faz justiça. Sentado no meu canto, tento adormecer...

sexta-feira, setembro 22, 2006

Marionetas !

Escolhas…
Por vezes demasiado longas, renitentes ou impossíveis de satisfazer no imediato.
Páro para pensar, ouvindo a voz que emerge do meu interior e lentamente me diz para ceder ao que realmente não tenho de concreto.
Levo-me pela tentação, pelo fácil e estreito, talvez pela admiração do meu tempo de espera onde o caminho afinal, é bem mais simples do que parece.
Receio o erro, o engano e uma falsa estratégia, onde um mínimo desvio me poderá perder para sempre, deixando á deriva pela turbulência dos mares e vetado ao abandono como conchas vazias e ancoradas.
Talvez seja mais difícil do que parece, quando estagno e me conto a mim mesmo que as esperanças e os sonhos serão sempre meus, apenas se lhes der o que tanto deles espero.
Parece uma venda, uma troca barata de qualquer bem de consumo, onde os meus objectivos parecem uma propaganda apelativa aos meus olhos, sendo que afinal, mais do que eles, sou eu que aos poucos me vendo e entrego á preguiça do mundo.Oiço uma voz interior, semelhante a um grito de revolta, abrindo-me os olhos e fazendo-me crer que não sou apenas mais um de tantos outros, mas o primeiro de mim próprio.
Posso viver a mentira, o engano e a desonra, ser apenas aquilo que vês, não podendo recusar recompensas, alimentar-me de poder, de ganância e prazer, embora consciente que é a alma que vendo, violo e martirizo, apenas por uma questão de lucro momentâneo e de satisfação pessoal.
Afinal, o que apenas posso, é acreditar que nada poderei fazer e aceitar regras, ordens e pedidos…
Acordo com a prova dada que nasci para liderar o meu caminho, mas não passo de um mero fantoche que se perde em atalhos estrategicamente colocados para seguir o mesmo trilho de tantos outros…

domingo, agosto 27, 2006

Pausas...

Melodia silenciosa, cujo som disfarçadamente se escuta, tudo tem para ser ouvida...
Encontra-se em todo o lado, ocultando o ouvinte, mascarando-o de forma transparente.
Sem ela, não conseguiria viver...
Aceito o mérito do silêncio como a coisa mais natural do mundo, deixando que ele constitua o mais retumbante aplauso...
Voltarei em breve... com prazer! NM

domingo, julho 16, 2006

Elixir !

Hora vespertina que embriaga o meu íntimo, guia-me a mente para lá do corpo, para além do coração e transforma a minha dádiva de vida, num poderoso milagre de existência e conhecimento...
Tempo, que te encarregas de me congelar os movimentos, me entorpece as já obsoletas peças do corpo, afasta-me da tentação de ceder a última célula e o suspiro final do meu ser.
Prevalece um coração iluminado de esperança, supéfluo de razões conscientes, válidas e coerentes, ainda que mantendo a sagacidade e jovialidade da primeira batida, desde a primeira hora...
Mantenho-me acordado, protegendo-me do abismo, do buraco negro que desconheço, da frieza e estranha sensação de vago e inerte, camuflando o implacável tempo que aos poucos me amadurece, colhe e me vê apodrecer.
Apesar da locomoção que aos poucos me emperra e prende, luto e grito por dois passos mais de esperança, de certeza e convicção, mantendo-me firme e alinhado na busca contínua da eterna juventude.
Que o verdadeiro elixir viva dentro... Que o mesmo habite em mim...

segunda-feira, junho 26, 2006

A espera !

O desacerto contínuo de um momento de solidão invade-me, atormenta-me e adormece-me lentamente, quase trazendo até mim uma sonolência e uma enfermidade doentia e inoperante.
Lenta esta agonia, este tempo estúpido e mesquinho na espera de algo, cujo sabor me parece insípido e cuja coloração assume contornos de invisível e simultâneamente de opaco.
Conto os minutos, os valiosos segundos que se gastam e me envelhecem nesta espera. Nada cresço, nada de novo me apraz registar...
Morro suavemente com o passar das horas, numa reclusão concedida e dela necessitando para meu sustento.
Rodeado de paredes decoradas por embustes estrategicamente colocados, desafio a minha resistência, testo a minha capacidade de sacrifício, paciência, aguardando que qualquer presa me visite e possa cair na minha rede de argumentos.
Afinal, mais do que qualquer outra espera, situo nesta toda a minha capacidade física e mental, características e aptidões. Ainda que me sinta envelhecer de um modo precoce, mantenho-me ciente dos meus níveis de saturação de limite humano.
É esta uma das minhas muitas vidas...
Lábios !

Agradável beijo, levemente pincelado com o teu ser que nele emprega todo o corpo, todo o espírito e a mim se entrega num círculo de sentimentos e sensações indescritíveis.
Sinto o leve tocar de lábios, deles me alimentando, consumindo a tua existência e fazendo dela o elixir do meu equilíbrio, necessitando do calor terno e morno da tua boca para me nutrir, procurando o viver saudável que o teu beijo me transmite.
Beija-me por instantes, de modo longo, demorado, perdendo a dimensão e a noção do tempo, do espaço, consumindo-me e dando-me tudo o que és, sentes e podes viver.
Excita-me sentir-te assim, com pequenos laivos de instinto, deixando que o coração sinta o que a razão desconhece e me deixe viver contigo o que de mais belo existe na tua carícia, no teu mimo, no teu doce ser que tanto me completa e faz crescer.
Envolto num doce mistério, sinto-te em sintonia comigo, bebendo ambos do mesmo mel que em nós se produz, se manifesta e sem que nos apercebamos, nos alimenta, nos faz sentir um no outro e propaga de um modo lento, cadenciado, mas pleno desse amor que por nós irradia.
Beija-me novamente, cada vez mais e de uma forma atroz, calculista, audaz, deixando que transpareça tudo o que sentes, tudo o que desejas, amando-me, mordendo-me, devorando-me com doses de pura loucura, insanidade para quem nos desconhece e observa, mas assumidamente condimentada na perfeição, como uma conjugação de ingredientes e factores por ambos vivida. Sente-me amando-te e retribuindo muito mais que um simples tocar de lábios famintos e ardentes...
Ama-me pelo beijo, consumindo-me até à exaustão.

terça-feira, maio 30, 2006

Olisipo !

Tarde...
Quase noite, mas hora perfeita para observar o melhor cenário do mundo.
Examino com vaidade e um tremor periclitante, toda a perfeita imensidão diante dos meus olhos. Pareço chorar de orgulho perante ruídos, cores, odores e toda esta amplitude disforme, mas perfeitamente ordenada de um mundo muito meu.
Vindo de sul, sinto-me abraçado e acolhido com uma hospitalidade única, apenas por uma porção de terra que serviu de inspiração a quem a vestiu, conquistou e tantas vezes dela se esqueceu.
Sinto-me seu rebento, trazendo-a comigo como uma progenitora a quem beijo incessantemente e lhe mantenho total fidelidade. Ergue-se a cada novo dia com movimento, agitação e com vida própria mantendo aberta a sua extensão nocturna, num longo limite de colinas amontoadas, lavadas por águas correntes de um curso grandioso.
Vejo-a como muitos, observando-a como poucos, mostrando o que realmente se sente quando por ela se evoca e tudo se mostra num amontoado de curtas palavras e insuficientes adjectivos.
Evidenciam-se qualidades, apontam-se defeitos, exibindo o seu viver perante os séculos de história, mantendo vivas as estórias de espanto, de aventuras, de lendas e mitos e de tudo aquilo que a compôs e fez dela a grandiosa senhora que a todos conquistou respeito e admiração.
A arte moldou-se nela, refinou-se, dando lugar a obras, a uma cultura ímpar de máscaras e mistério, sabendo manter viva a fiel tradição de algo típico, pitoresco e muito seu.
A ocidente o mar dilata-se, parecendo engolir cada pigmento que a sua pele coleccionou desde sempre...
Finalmente, reparo no mundo que se foi formando por aí fora, tendo-a como modelo, como referência e ponto de partida para a conquista de novos territórios, de novas terras e justamente afirmo, que foi aqui que o universo eclodiu e lhe pediu para ser sua mãe.
Saciável !

No teu sangue alcanço o infinito, na tua alma, permito-me tocar-lhe...
Encontra-me pelo uivo arrepiante da sombria noite que já bem alto se encontra vestida e recheada de movimento. Nela te aguardo, esperando o gélido corpo da tua presença física, quando tombas como qualquer outra.
A imensidão do luar fascina-me e penetra-me o ego, como um doce aperitivo que de tanto agre, se torna num supérfluo e contagiante digestivo. Embriago-me de emoções, de tragos mais ou menos sedutores, mas completamente recheados de sabores esquizofrénicos de saber e malícia. Possuo-me, detenho-me e aguardo-te com uma paciência demoníaca, maquiavélica e agindo de uma forma felinamente cobarde e matreira.
O amor aproxima-se em oceanos de sangue, quase deixando que o prove e o consuma gota a gota, pedaço a pedaço, deglutindo de uma só vez, a carne tentadoramente condenada ao meu proveito. A paixão, assume contornos insanos, permitindo-nos vivê-la no limite, no extremo e ousando transpor o limite do racional. Oculto e dissimulado por entre vários ambientes, capturo-te como uma presa, segurando-te, prendendo-te e alienando-te como algo meu, soltando-te o possível, para que os meus movimentos te possam manipular e fazer-te parte de mim. Rasga-se a pele, sentindo-se os tecidos anatómicos sob formas de harmonia e prazer. Alimento-me de ti, sentindo os teus nutrientes calorosamente aninhados no meu corpo, como um complemento nutritivo que tanto preciso para me satisfazer.
Calmamente, consumo-te até ao fim, saboreando voluptuosamente e de um modo terrivelmente desumano. Frio, grotesco e cheio de desiquilíbrio, mas de uma forma única e completamente arrebatadora. Deixa-me que te ame como mais te desejo !

quarta-feira, maio 10, 2006

Baile Veneziano !

Navego pelos canais venezianos de encontro à Ponte dos Suspiros. Formalmente mascarado de tabarro e capa de seda, vivo a noite de carnaval como mais um momento de trabalho e pesquisa.
Procuro o tal baile, onde ninguém se reconhece por detrás de tão enigmáticos disfarces. Vacilo nos gestos, na descontracção e apesar de escondido, não consigo assumir-me como um qualquer mascarado. Tudo isto é simbolismo, intensidade e sedução...
Sinto-me misterioso, como um cortesão que bem do alto da sua firmeza, observa as misérias humanas que estas máscaras ocultam. Finalmente, alcanço o final do meu trajecto. Junto-me á multidão para fazer parte de toda esta euforia colectiva, e acabo por ser engolido nesta enxurrada de histerismo e loucura. Aproxima-se um grupo de saltimbancos, com o intuito de varrer qualquer réstia de tristeza. Já em terra e deixando a gôndola que me trouxe, agarro na minha máquina e começo a fotografar tudo o que se move, tentando aprimorar qualquer detalhe que me escape no momento. Audacioso, sigo em direcção ao mistério que a todos envolve. Ninguém sabe quem se encontra diante de si. Em muitas destas figuras jokerianas, é praticamente impossível e totalmente imperceptível saber sequer o sexo de quem nos acompanha. Finalmente, alcançamos o nosso destino...
O baile situa-se numa espécie de mercado, onde todo o desfile se vai desembocar e desafunilar.
Perdido o encanto desta enxurrada, dedico-me a observar, a fotografar e a registar tudo o que me é possível. À minha volta, emergem mil vozes risonhas, coloridas, cálidas e em simultâneo com o brilho das fantasias garridas que a todos nos veste. Parece que o céu, é o único elemento sóbrio e tranquilo neste cenário de demência e perfeita loucura. Continuo a realizar a minha tarefa, tentando-me manter sereno e distante de todo este ambiente. No entanto, algo me perturba e interage comigo. Sinto um flash continuo, sempre atrapalhando e condicionando a minha visão. Baixo suavemente a objectiva da minha máquina e reparo a curta distância, numa máscara cujo brilho dos enfeites, parece vir ao meu encontro. Caem confettis sobre os nossos ombros e fixo cada vez mais o meu olhar sobre aquele vulto. É perceptível que se trata de uma mulher, cujo olhar de borboleta e corpo de cortesã, se movimentam eroticamente ao som da música ambiente que por todos é consumida.
Ergo novamente a máquina, com o intuito de captar todo aquele meio circundante. Tento obter a melhor posição para uma fotografia perfeita. Contudo, quando me preparo para disparar e ouvir o glorioso som do obturador, aquela figura desvanece-se, desaparece e consume-se no meio das gentes, não me dando qualquer chance de a apanhar. Quis segui-la, alcançá-la! Perdi-a no meio multidão... Era a personagem ideal e a imagem perfeita para o meu projecto. Olho em redor e nada mais vendo do meu agrado, ponho-me a caminho do hotel, prestes a tirar a minha máscara, com o desalento natural pela perda de algo que muito queria.
A noite muda, acompanha-me. Oiço apenas ruído de fundo, distante e ausente...
Num virar de esquina o luar adensa-se e sob as colunas de uma igreja, avisto-a diante de mim, como que perdida e vinda em meu encalço.
Ambos mascarados, oiço-a murmurar, até me pergunta perceptivelmente, se a desejo seguir. O meu coração palpita-me descompassado... Aceno-lhe ligeiramente, concordando com o seu pedido. Corremos pela neblina, distanciados pelos curtos metros que nos separam, cercando as colunas desta cidade lacustre e parecendo jogar o jogo do desejo. Perco-a, encontro-a e alcanço-a, perseguindo-a nesta espécie de labirinto. Finalmente vejo onde se alberga, mantendo-me imóvel e vendo-a subir por uma enorme escadaria. Diz-me para esperar e para subir apenas quando vir luz numa minúscula janela à minha direita. Aguardo impancientemente, mantendo a desconfiança natural naquela mulher que se cruzou comigo. O meu olhar, concentra-se no pequeno vitral, até que sigo disparado pelas escadas acima, quando o vejo brilhar. Percorro cuidadosamente o corredor, entrando calmamente, naquela divisão. A luz é morta, submissa e incrivelmente sedutora. Concentro-me mais nas paredes e decoração daquele quarto, do que propriamente na mulher que me levou até ali. Contudo e depois de consumir um pouco todo aquele espaço, deparo-me com ela numa enorme cama, mantendo a máscara e cobrindo os seios apenas com uma túnica semi-transparente. Nota-se que está nua, despida de pudores e parecendo desejar-me. Pede-me que a fotografe, que a capture através das minhas lentes, mas que evite a todo o custo, usurpar o seu corpo. Disparo vezes sem conta, mantendo o cuidado de não ousar em demasia e de nunca alcançar uma pele totalmente despida. Aproximo-me, afasto-me, curvo-me em diversos ângulos, tirando o tentando tirar o melhor partido possível de toda aquela sensualidade. Mantenho todo o meu profissionalismo, até que a sinto tocar-me nas pernas, desconcentrando-me e fazendo-me arrepiar. Desço a objectiva vagarosamente, sentindo-a a continuar a acariciar-me. Sinto-me desejado e deixo-me levar. Despe-me suavemente, baixando-me as suaves calças de cetim e mimando-me as coxas até aos joelhos. Ajudo, tirando a camisa e permitindo ficar completamente nu. Acaricia-me o sexo, tocando-lhe e percorrendo todas as minhas formas. Vou de encontro ao seu corpo, deitando-me a seu lado e com desejo de lhe tocar. Percorro-lhe as longas pernas, sentindo-lhe as ligas e num toque inesperado, a carne quente e palpitante. Apalpo-a e mergulho os meus dedos nesse canal de prazer atroz e apetecivel. Sinto-a suspirar perante o meu tacto, enquanto com os dentes lhe puxo a coberta que a conforta e lhe descubro os seios completamente entumecidos de desejo. Roçamos os nossos corpos ávidos de prazer e loucura, mantendo sempre a nossa identidade salvaguardada. Penetro-a com fervor, conseguindo um ritmo selvático que me enlouquece de desejo, com ela cooperante em todas as minhas acções. Sinto vontade de a virar, para a tomar pelas ancas, mas rapidamente sou surpreendido com um forte empurrão que me deixa prostrado de costas. Senta-se em cima de mim empurrando-o para o seu interior, balançando-se nele, sentindo prazer... Cada vez mais, parecemos engolidos para dentro destas máscaras, não sabendo afinal o que somos, o que fazemos, com quem estamos e o que desejamos. Finalmente, num movimento frenético e ousado das suas ancas, surge a explosão maior para ambos. Tudo se estilhaça num louco firmamento. Toda esta sinfonia desconcertante, converteu-se num lento, espasmódico e quase interminável orgasmo de sentimentos.
Exaustos, consumidos apenas pelo sabor da pele e mera proibição de carícias faciais, víamos a noite convertida num pontilhado de serpentinas luminosas. Reparo no fogo de artifício lá fora, rebentando e dando cor à noite veneziana, ficando soturnamente a observá-lo, como que hipnotizado perante tanta beleza. Tento chamá-la para vir comigo até ao varadim daquela janela, mas olhando para o lado, nada mais vejo que a máscara vazia daquele corpo que a usou. Retirou-se de um modo galopante e sorrateiro, deixando comigo a grata recordação de um momento inesquecível... Nunca mais a vi, mas comigo permanece ainda hoje aquela máscara cujo brilho dos enfeites, veio mesmo ao meu encontro.

sexta-feira, abril 28, 2006

Introspecção !

Sou o momento, a alma, o ser...
Momento que termina e me faz sofrer, desejando o próximo, como um slide de sensações e vivências. Sinto-me o tempo, a unidade do mesmo, o desejo e a vontade rastejantes de me esgueirar perante cenários de vida, como a serpente que habilmente se move e nos amedronta.
O viver pulsante dos pesadelos encontra-se comigo, assustando e prendendo a um solo de ardor e sofrimento, como as sombras que me acompanham e se desvanecem com a luz tórrida do meu corpo. Uma secreta promessa de partida, abrilhanta-me o olhar, ilumina-me o caminho e a árida travessia diante de mim, permitindo e deixando que o faça uma só vez no meu interior, no meu íntimo, no meu crer...
No sono da vida jaz o acordar da morte, sempre presente, sempre distante e onde a nossa comparência, assiduidade e presença se mantêm intactas e invulneráveis.
Sinto-me o momento, a alma, o ser que não deixa que se acabe em vão, buscando o prazer e o deleite da vida, sentindo cada vez mais o aliar da imortalidade e da esperança num viver muito para lá do corpo. Aqueles vagamente esquecidos, estarão comigo, encarnando-se em mim, penetrando-me e fazendo com que os seus espirítos viajem incessantemente no corpo que me dá forma, procurando enraizar-se num qualquer outro modelo que os faça fazer sentir vivos e inextinguíveis...
Como um correr apressado de águas turbilhantes, como um vento ensurdecedor de ameaça e revolta, sou o momento e o ser que se ergue do sono e procura no acordar a elevação espiritual que tanto necessita para alcançar a vida eterna.
Para lá de tudo... viverei !
Luna !

Sangue sem reflexo sobre as águas do medo, cujos acontecimentos se afogam perante o líquido cristalino que se move, deambula e balbucia ao sabor do vento...
Cedo voluntariamente sem hesitar, por uma vida cruel, fria e demasiadamente viciada por métodos condenáveis e através de um génio temperamental plenamente concebido. Vivo no meu astro, com ele e por ele, mantendo-me unido e fiel a principios básicos de coerência e influências astrais.
Repouso no toque da carne, vivendo num casulo apertado de metamorfoses asfixiantes, neste mundo de falsas crenças e onde tudo se permite acontecer... ctg e por ti !
Pareces a semente da loucura, sinal de resistência perante um estado inato das fases que te vestem, moldam e nos influenciam diante de um tacto facilmente corrompido. Mostra-me como fazes, como me esmagas e me atrais até ti, fazendo-me um seguidor possuído pelo teu encantamento mágico de misticismo e loucura hipnotizante...
Feridas de luz por ti irradiadas em céus inimigos, realizando acções, dando-lhes vida, ganhando forma, permitindo que os seres se criem, se destruam, se movimentem e conquistem a erosão de um tempo sempre ausente, sempre presente, sempre audível, sempre sentido...
No teu gelo evaporo, no teu calor derreto, no teu suspiro me encanto, no teu ser me elevo.
Contigo desde a nascença, sempre... até ao fim !

terça-feira, março 21, 2006

Guerreiros !

Desafiando e partindo de encontro à tempestade, ainda com a tranquilidade do tempo, partamos sem receio ou temor do tenebroso caminho que se nos apresenta. Percorramos os mesmos sulcos de pedra e de obstáculos, por onde centenas de homens lado a lado, sentiram os ventos soprarem fortes e devastadores. Da mesma forma prosseguiram, resguardados pela fé e pela crença de um destino radioso, iluminado e tranquilizador.
Através do nevoeiro que nos engole, com armaduras vestidas de coragem e ousadia, procuremos alcançar o términus, e ver por que trilhos andaram estas gentes, estes conquistadores de um tempo actual, bem diferente das batalhas de outrora e que mesmo assim venceram, destruindo inimigos tantas vezes frágeis e apenas psicologicamente ameaçadores.
Na pluviosidade facial que nos inunda o corpo, na névoa que nos oculta as mãos, no terreno movediço que nos faz escorregar e tenta engolir, lutemos bravamente para sairmos vitoriosos, buscando o êxito e o galardão final, como a tão almejada recompensa que tanto nos irá preencher e atestar. Jamais nos entreguemos de ânimo leve ou nos rendamos apenas por um conjunto de impurezas, de uns quantos galhos espalhados diante de nós ou mesmo por uns mercenários de elite, que tantas vezes nos pisam e fazem de nós um degrau sujo mas conveniente para subir.
Manter-nos-emos fortes, audazes e esguios para fugir de obstáculos, nas batalhas ou barreiras finais que surgem incessantemente...
Seremos novamente guerreiros, regressados com um poderio maior e mais ameaçador, com espadas em riste, escudos de protecção cada vez mais pequenos mas resistentes, sem sangue por derramar ou carne disposta a ser trespassada de ânimo leve. Completemos o desafio, provocando o confronto com vencedores de outras direcções e permanecendo tranquilos em pódios muito próprios.
Regressados a casa, vencedores, aguardam-nos as honras pelos objectivos conseguidos. Façamos no brinde da vitória, a sentida homenagem e respeito a todos aqueles que perderam pelo caminho e que pelos mesmos propósitos, lutaram bravamente sem infelizmente, o conseguirem.
Orgulho sempre, pelo que somos, pelo que conseguimos, mantendo a humildade dos verdadeiros guerreiros, que nunca se entregam e olham para os menos fortes, com o mesmo respeito que sentimos por nós próprios...

terça-feira, março 14, 2006

Pazer súbito !

A ti te dispo, a ti te desejo, a ti te adoro...
Imagino-me em vastos e longínquos cenários, descobrindo e desvendando em cada um deles, novas formas de aventura, de excitação e de prazer. Recebo-te em cada cena, esperando-te e permitindo que os acontecimentos se desenrolem e nos envolvam, tomando parte de nós, possuíndo-nos e deixando que o prazer físico nos contenha.
Espero por ti, vejo-te chegar de olhar penetrante, andar apaixonado e seguindo na minha direcção. Recebo-te de braços abertos, de lábios quentes e derretidos, mantendo também eu, um olhar de expectactiva e de sofreguidão. Abraço-te, percorro-te cada forma do teu corpo, deixando-me levar e permitindo-me sentir, saciando a oportunidade que me é concedida.
O beijo aterrador e o toque lento mas directo, despem-me de preconceitos e deixam a nú, a minha frágil parte física que me reveste e dá forma. O silêncio a ambos consome, permitindo leves guinchos de som agudo e inarticulado. O suspiro e a excitação sobem de tom, mantendo viva a respiração ofegante, que os nossos corpos teimam em produzir. As vestes que nos cobrem caem por terra, deixando o odor corporal pairar pelo espaço e fazendo com que nos ambientemos cada vez mais a uma outra pele quente e aromatizada. O consumo a que nos propomos, é deveras carnal, selvagem e directo mas sempre contemplando um nível de ardente sedução e entrega, que em nada nos intimida, proibe ou envergonha. Fluímos energias, fluxos de poder e vigor. A firmeza em nós habita, permitindo que nos sintamos em condições de produzir actos de perfeita sintonia e desempenhando simplesmente, um papel secundário nesta forma de amar. O epílogo, nada mais é que uma castração incoerente da acção por nós encetada. Talvez seja o lento desejo por recomeçar, uma sensível intuição com traços de prazer ou blasfémia por um prazer sexual, tantas vezes incompreendido. Sintamo-lo apenas, vezes sem conta e recomeçando a cada novo momento... A mim me despes, a mim me desejas, a mim me adoras...

sexta-feira, março 10, 2006

Segredo Obscuro !

O Sol parece desintegrar-se como uma chama distante, contra os Céus...
Além da tenebrosa neblina que os reveste e disfarça, situa-se uma verdade encoberta.
Parece uma espécie de reino ainda por desvendar, cujos ocultos e eficazes poderes, amedrontam e fazem acautelar o comum dos mortais. Ainda é demasiado cedo, para que se ouse ir mais além.
Sentença designada, por uma força do desconhecido, a resposta não andará muito distante do nosso espírito, onde nos perguntamos incessantemente sobre o que estará naquele lugar, observando e registando apenas, pequenas circunstâncias deste lado visível.
Passados uma vez para lá do horizonte, selados no seu interior, intocáveis e seguros, encontraremos este segredo escondido, arrumado e inteiramente só. Naquela escuridão vadia e profunda, descobre-se a força, o domínio, a influência e um poder demasiado forte, para se poder controlar levianamente.
Os Céus parecem dividir-se e querer lançar sobre os astros, a ira, a raiva e o furor daquela poderosa e eficaz energia acumulada, aquando do chamamento. Os oprimidos e injustiçados, emergirão da poeira e da densa névoa que nos limita o olhar, trazendo partes do segredo e desse poder, acopladas em si... Os injustos e opressores, acomodar-se-ão no fútil e no vago, permanecendo em silêncio e alojados em recônditas celas de escuridão e desprezo.
Talvez não passem de cobaias ou de seres vitimizados por algo sobrenatural, mas gozam de um estado e de um estatuto, ainda indecifrável numa vida humanamente existente.
Em breve, o saberemos...

quinta-feira, março 09, 2006

Coma !

Vê através do vazio, a visão da tua existência e diz-me no que reparas e onde fixas o olhar. Talvez um sonho, em que acreditas estar a vida que não consegues ver, ou algo que exista e não o consigas ser...
Acordarás, mas não para um sonho... Talvez, para uma fantástica aparição ou aproximação do real que tanto começas a acreditar e a alienar, como um sentimento efectivo semelhante à dor, cuja sombra te acompanha de feição. Não acreditas que te aprisionas, que te sentes irreal, que sofres de um sono demasiadamente pesado que não termina e te faz balançar entre o abismo desconhecido e um precipício descoberto.
Não domines o olhar da tua mente, quando simplesmente essa mesma visão parece ser uma peça chave de outros tempos, acontecimentos ou criações muito próprias e ambíguas. Receia e debate tudo o que sonhas, já que essa mesma ilusão, se poderá encontrar vedada por ti.
A visão que observaste, esse olhar pela mente e pela consciência, acabará inevitavelmente por ser um lado escuro que nunca quiseste ou desejaste e com ele, lentamente te destróis e te deixas arrastar. Contudo, a principal razão de entrares neste sonho, é simplesmente demonstrar-te o que nunca imaginaste poder viver, sentindo a fúria da demência e o poder do sono profundo.
Estarás a salvo enquanto visionares! Reterás internamente o segredo do que viveste, mantendo a experiência sentida nesse túnel de luz, selada bem próximo do teu princípio espiritual.
Lentamente, aprende a despertar desta embriaguês física e teleporta-te novamente para o teu mundo, onde a actividade cerebral volta a registar os contornos de uma vida real. Acorda !

terça-feira, março 07, 2006

Sensibilidade.

Parece um crime levar todos os tesouros e fortuna que reuni ao longo dos tempos. Apesar das correntes e do loquete que se perpetuam no meu peito, jamais serei capaz de as quebrar, simplesmente com o intuito de retirar do meu interior tudo o que de mais valioso mantenho.
Ainda que viva em mim uma hipnotizante mancha de reflexão, cuja coloração me confunde e desnorteia, o simples facto dela existir no meu íntimo, faz com que se derreta e se extinga num dourado extraordinário e extremamente precioso.
É a doce futilidade do amor, esse travo amargo que nos é cravado pelo tempo e nos faz tornar nuns estranhos seres, surpreendidos pelo sentimento de afeição e veneração, misturando factos emocionais de atracção e paixão...
Cada lágrima vertida em cada parte do rosto, parece secar no desespero e na dor aquando da perda, da privação, do extravio ou interrupção dessa disposição afectiva a que muito condignamente, apelidamos de amor. Parecemos viver o suficiente, ter a necessária experiência para conviver com as razões, motivos ou argumentos que nos levam a quebrar a singela corda, que sempre nos pareceu tão resistente, sólida e duradoura. Sente-se o fim bem próximo, quase selamos um pacto com a morte, julgando ser apenas ela a nos conseguir trazer as doces e felizes memórias, de um passado demasiado envolvente... Vivem-se horrores assombrosos, parecendo drenar toda força e respiração ofegante que em nós habita e aos poucos se dissipa...
Nada nos resta, nada nos vale... Apenas reside em cada um de nós, a cinza e a poeira, suavemente lavadas por uma qualquer gota de água que ocasionalmente nos pincela e nos extingue. Libertemos o sangue que dói, fere e importuna, mantendo sempre bem vivo e protegido, o coração que nos permite sentir e viver.
Contusões...

Será que nunca foste ter com o mundo lá fora, receando o que te espera?
Sinto o mundo demasiado perigoso para te ver sozinha e abandonada por aí... Creio ser e poder ter o crédito necessário para não te deixar desamparada, nem á mercê das intempéries que por aí se povoam, aguardando-nos sedentas dos nossos corpos miseráveis e esguios.
Ambos sabemos que nem tudo é resposta, nem tudo são questões ou dúvidas, devido ao medo e à raiva que se aproxima num largo passo e nos faz culpar por vezes, as próprias vicissitudes dos acontecimentos. A quem magoamos nós, já sangrando em abundância pelas batalhas mal conseguidas?
Também me pergunto, porque será que o mundo exterior e diante de nós é negro e perigoso, contrastando com as nossas paredes cada vez mais pequenas e sufocantes?
Passo a passo, diariamente, creio não conseguir viver só, nem te deixar fazê-lo.
Olhos perversos, visões espantosas... Sacode as lágrimas, acende um sorriso! Acorda!
Pareces pronta para ir lá fora, respirar a vida, sentir a carne, tocar a pele e deixar que o sangue se verta dentro de ti. Que este viver escondido se interrompa, agora que pareces conseguir um pacto secreto com o teu ser... Paremos de lamentar, sacudamos o choro compulsivo que nos derrubou e nos fez parecer engolidos pela frieza dos dias. A quem magoaremos agora?

segunda-feira, março 06, 2006

Justiça !

Sinto-me cansado...
Talvez dos múltiplos disfarces que visto, tentando através deles apurar a verdade. Contudo, realizo-me e mantenho o compromisso de honra que mantenho diante das minhas mãos ensanguentadas, por nelas mergulhar a mentira, a injúria, a demência e o embuste.
Arrasto-me e rastejo na busca de permissas reais, na exactidão, rigor e precisão de actos meramente correctos, numa glória vã de descobrir o certo e o errado, o correcto e o incorrecto, o exacto e o impreciso... Crescem-me o medo e o receio das respostas por virem, das soluções que julgo serem escrupulosas, decentes e de padrões morais acessíveis.
Grito, rezo e alimento a minha tensão, numa tentativa proporcional de alienar o tempo, aos resultados das análises pedidas. Sinto-me a criança que apressadamente, aguarda pelo seu brinquedo, que se sente arrastar na escuridão, que se diverte na espera e nela vai criando e antevendo ambientes, como que a montar um conjunto de peças, para finalmente o completar com um último bloco. Mantém-se o medo e o pavor dos momentos de vazio, de uma espécie de precipício ou abismo diante de nós, em que um passo nos salva e nos suspira ou nos mata e compromete. Que longa espera...
O tempo assemelha-se a um vento que nos sopra, mostrando-nos o destino, esse poder superior à vontade do homem, que se supõe fixar de maneira irrevogável, o curso dos acontecimentos.
Olho-me como que reflectido por um espelho, vendo lá fora um mundo inteiro por fazer parte, tendo apenas a decisão em mente e um vidro baço que me separa da vida real...
Acordo a cada manhã em sobressalto, até ao dia da decisão...

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Posses !

Não poderei ser amante, sentindo-me como que assexuado e preso a uma corda de amor...
Dificilmente viverei sem ti de uma forma ou de outra, admitindo que jamais serei ou conseguirei ser o que és, o que somos e o que sou a teu lado. Nem acabamos por descortinar um desfecho, uma solução final ou um epílogo directo, mantendo em ambos a viva esperança, de encetarmos o tratamento para esta contaminação que aos poucos nos consome e destrói.
Não posso ser os teus sinais, viver os teus ímpetos, sentir os teus impulsos nem tão pouco ser esse teu gelo que se acumula e amontoa, formando um icebergue de frieza e ríspidez, onde gostaria de adornar essas orlas e extremidades que tanto nos perturbam... Poderia ser o teu apocalipse e viver cada uma das nossas insignificantes vidas em ti, em mim próprio, tendo nele o bater de exterminação, ruína e perda total. Jamais serei como tu e nem mesmo esse ser abominável e hediondo que tanto pareço ser e a algo se assemelha, se conseguirá convencer ou transformar num amor distractivo que se atreve a tocar os limites da demência. Nunca serei a tua absolvição, ou o trajecto na cadência do teu consumo.
Não consigo...

quinta-feira, janeiro 12, 2006


Trilhos !

Trajectos difíceis quando os percorremos sós, doendo e ferindo sempre mais, quando nos dilaceram os sonhos imaginados e sentidos por uma vida de espinhos e farpas cortantes...
Em cada novo porto de abrigo sentimos novas intempéries, onde parámos para buscar uma paz interior, que nos fortaleça o íntimo e nos faça seguir em frente. Deixando as perturbações que nos assolam e atormentam, outras se nos deparam, como uma real guerra que nos quebra o espirito e se nos crava como parasitas em busca de hospedeiro.
No lado de fora das portas da vida, dir-te-ei onde acabarás, bastando que apertes a mão de quem ta estender e sigas o caminho e o rumo certos, cujo percurso é teu e jamais terá fim.
Esse será o teu lugar, onde serás tu e o teu refúgio, onde te sentirás livre, em casa e onde desejarás estar...
O trilho é arduo e longo, cada passo é um começo, sem pausas ou paragens. Apenas barreiras nos prendem a consciência e apesar desta constante perseguição, não creio que ninguém saia vencedor. É um rumo intenso, demorado e intransitável, duro como um inferno de fogo, mas é nele que habito e sobrevivo. Que na primeira gota de sangue por mim derramada, seja o começo do meu trajecto, onde dia e noite luto para me manter vivo e viver a vida, sobrevivendo!
Cristais !

Começa com um sentimento puro, esta vitral segunda visão.
Sem alucinar ou imaginar, capto o meu futuro nesta roda da fortuna que se desvenda diante de mim. Parecem honras ou hostilidades abertas, apenas destinadas a loucos e insanos.
Através deste vidro visível, viajo e deambulo, controlando uma máquina perfeita de imaginação, realismo e demasiada crença. Será que tudo isto, terá o condão de acontecer, ou manter-me-ei na expectativa de nada se realizar e tudo ser negado ?
Realisticamente, a necessidade de me agarrar a modelos gastos, leva-me a mais uma experiência, sendo esta apenas mais uma em que acredito e em que julgo poder trazer-me uma vida mais brilhante. Adivinha de horrores, excepcional por vezes, através de detalhes quase sempre revisitados, sinto-a alinhada com o prisma da morte, como um olho de cristal, onde somos vistos como seres débeis e estáticos, mantendo-nos hipnotizados no seu interior.
Antes do "grande acordar", o erro persegue-nos, como que a contar segundo após segundo, um despertar mais intenso para a realidade que nos atormenta. Nada deverá acontecer ou se algo por acaso se suceder como uma matéria coincidente, nunca te porei em causa, como uma fraude que sejas ou um objecto de mero uso decorativo!